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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Sab | 10.07.21

À Conversa nas Nuvens - Ana Venade

Nuvem

Ana Venade. Talvez não a conheçam por este nome. Mas, quase de certeza, já passaram pelo instagram "Coração de Mãe Fala". Uma página recheada de histórias de amor e superação mas, e acima de tudo, reais.

Hoje, foi a vez da Ana falar da sua história aqui pelas Nuvens!

 

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Olá Ana. Antes de mais, muito obrigada por nos dares o privilégio de estares aqui hoje. Dizes ser uma contadora de histórias reais… são essas as mais bonitas, mesmo que não sejam perfeitas?
Sem dúvida que as histórias reais têm um impacto enorme em nós quando as lemos. Acho que as histórias da Princesa e do Príncipe que foram felizes para sempre já estão ultrapassadas e queremos viver o que é real. Com o momento que estamos a viver há mais de um ano (covid) sentimos a necessidade de apoiar e dar colo a histórias que nos levam a questões como: o que aprendo com esta história? O que esta história tem para me ensinar? Sinto-me ou não conectada com história?

 

Criaste o “Coração de Mãe Fala” com que intuito? Alguma vez esperaste ter o alcance que tens conseguido?
Descobri que sinto compaixão e uma empatia enorme por todas as famílias e especialmente por todas as mães que se sentem sem voz e que se sentem perdidas, sozinhas e culpadas no mundo da Maternidade. Dói me só de pensar quando partilham comigo a sua culpa de passarem a vida a comparar-se com outras mães que não conhecem de lado nenhum. A página nasceu assim para que nenhuma Família se sinta sozinha nesta jornada. Este mundo das redes sociais abafa a voz das Famílias “Comuns e ditas normais”.Cada uma delas é única e especial e cada uma delas mostra-nos que não há certos nem errados. A quem chega á minha página quero que entendam e que aceitem sem julgamento as decisões e opiniões dessas famílias, isto não quer dizer que concordamos com tudo quer dizer que o nosso coração está apenas ali presente para ouvir.
Não tenho, sinceramente, noção se alcanço ou não muitas Famílias, se for olhar para os 4800 seguidores há páginas que me abafam, mas a mim interessa-me ter do meu lado quem realmente gosta da página.

 

Tens como lema “Dar voz ao vosso coração”; quando falamos e ouvimos com o coração é tudo mais simples?
Quando falamos com o coração o discurso torna-se mais puro e mais verdadeiro e sem dúvida que chegamos mais perto do coração do recetor da mensagem.

 

Crês que falta tempo e espaço para que as pessoas possam dizer livremente o que lhes vai na alma?
Infelizmente acho que sim... Acho que há espaço cada vez mais para se dizer o que sabem o que os seguidores querem ouvir e ver, casas bonitas, roupas lindas e de fazer inveja, famílias mega perfeitas com fotos lindas….O antes e depois de alguém que emagreceu em x meses, alguém que está a chorar numa foto…isto cria impacto nas pessoas. Mas dizer verdadeiramente o que vai na alma sem segundas intenções…parece-me um trabalho interior dos mais bonitos.

 

Há ainda muito julgamento e muita culpa – o impacto, mesmo que nas redes sociais, pode ser inimaginável para Alguém que esteja mais frágil…

O julgamento é algo quase inato, passamos a vida a julgar tudo até uma simples decoração. É preciso um trabalho do caraças para aplicarmos o não-julgamento na nossa vida. Eu nunca percebi porquê que as pessoas ficavam ofendidas com as minhas escolhas, como se isso afetasse a vida delas….E desculpem mas ainda há muito julgamento escondido por detrás de vários textos que se leem, mesmo quando a pessoa refere que não está a julgar. O que quero dizer com isto? Que o não julgamento tem de ser sentido, tem de vir de dentro das entranhas… Depois se fores uma pessoa frágil com pouca capacidade de dar a volta sozinha e se fores alguém que se auto julga o tempo todo naturalmente que te vais sentir a pior pessoa do mundo!

 

E, quando lemos histórias de vida mais tristes e complicadas, faz-nos pôr em perspectiva a nossa própria vida?
Para quem tiver a capacidade de não sentir só a história no momento em que a lê, mas que a leve para todo o sempre, a profunda gratidão de não seres a protagonista daquela história é uma lição para agradecermos todos os dias.

 

Devemos sempre “pensar em quem somos, mas e também em quem queremos ser”? Só assim nos tornamos melhores pessoas?
No dia em que se pensar eu sou assim e ponto final, para mim é sinal de não querer ser melhor, de pouca evolução ao nível de desenvolvimento pessoal. Eu todos os dias penso quem fui? quem sou hoje? Quem quero ser? E se houver pessoas à minha volta que me digam que sou a mesma pessoa, então é porque não me conhecem verdadeiramente! Não sei se nos tornamos melhores pessoas ao fazer essa reflexão porque naturalmente poderá haver pessoas que fazem o papel inverso, tornam-se piores pessoas. Eu no meu caso sinto que nasci com uma essência pura e que ao longo dos tempos a esmaguei mas que felizmente por ter essa atitude de reflexão voltei ás minhas raízes.

 

Ser mãe ensina-nos o quê? Por exemplo, que não há verdades absolutas?
Há a nossa e a tua e a vossa verdade. Cada Mãe fará o seu caminho na Maternidade e colherá frutos dessa caminhada, acho que basta apenas ter essa consciência. O que para mim pode ser uma afirmação ou uma verdade para ti pode não ser, e é isto que faz comichão a quem não consegue praticar o não-julgamento.

 

Em gerações anteriores, cultivava-se muito o mito do “muito mimo é mau para as crianças”. Defendes que é possível a existência de mimo e regras em conjunto?
Mimo “a mais” e regras?! Ambas podem conviver de mão dada, senão caso contrário criamos espaço para o mau comportamento. O problema é que as pessoas não conseguem separar o mimo da palavra permissividade e acham que ambas são sinónimas. Por vezes também confundem mimo com deixar fazer tudo e isto não é verdade, os pais é que têm dificuldades de estabelecer essa fronteira. Num momento dou mimo e noutro estou a estabelecer limites sempre na base de respeito pela minha filha e sem julgamentos. Entenda-se mimo, colo, afetos, compreensão, partilha, união, beijinhos e abraços..não me parece que tudo isto faça um adulto mau.

 

Tens consciência da importância que tens na vida de tantas pessoas a quem, pela primeira vez, alguém deu voz?
É um trabalho interior que estou a fazer. É muito natural pensarmos que aquilo que fazemos ou aquilo que escrevemos não vai interessar a ninguém. E por mais que todos os dias receba esse feedback, eu estou em profunda gratidão, mas acho sempre que não tenho assim tanta importância na vida de quem me lê.

 

Muito obrigada Ana. Pela tua generosidade, pela tua forma de ser, por tudo.
Obrigada eu por veres em mim alguém que merece ser entrevistado pela linda página que vou construindo aos pouquinhos com as histórias de todos nós! Sinto-me mesmo muito lisonjeada não imaginas quanto!
Com Amor,
Ana Venade

 

A Ana é uma das melhores descobertas do ano que passou. É uma das páginas que visito todos os dias, pela boa energia que ali está, que ela cria. Tal como eu, defende que as coisas devem ser mostradas como elas são. Que o coração de uma mãe nem sempre está aos pulos de felicidade. Que também há lugar a tristeza e frustração, e não há que ter vergonha disso.

Tem uma forma incrivelmente generosa de partilhar histórias e de, gentilmente, tocar todos os corações de quem a lê.

Todos os dias, a Ana inspira-nos a ser melhores. Mais reais. Mais autênticos. Porque a perfeição está nas nossas pequenas imperfeições!

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