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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 09.08.20

À Conversa nas Nuvens - Andreia Vasconcelos

Nuvem

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“A sensação é como se tivéssemos planeado uma vida inteira, uma viagem de sonho, desejada e preparada ao pormenor e já entre as nuvens, somos informados que o avião mudou de rota pelos imprevistos climatéricos e a assim a viagem tão esperada cai por terra. No início, ficamos desiludidos, depois choramos e até ficamos revoltados pelos nossos sonhos terem ficado naquelas nuvens altas mas depois cabe a nós limpar essas mesmas lágrimas que tanto nos deixaram tristes para tornarmos a viagem que saiu fora dos planos inesquecível.”


Não sei que outra frase pode melhor descrever o descobrir que um filho tem uma condição genética diferente do esperado. A frase é da Andreia, a autora do “Tomás, My Special Baby” e, para quem não a conhece, é uma das mães mais lutadoras, incríveis e felizes por esta blogosfera fora. Mostra-nos todos os dias que a diferença do Tomás é só uma vírgula de um texto que tem sempre um final feliz.

 

Olá Andreia. Antes de mais, é um prazer enorme recebê-la aqui nas Nuvens. A Andreia nasceu e cresceu em Lisboa. Foi a cidade onde sempre sonhou constituir família?

Obrigada eu pelo carinho e pela oportunidade de contar a minha história. Nasci e fui criada em Lisboa e como sou muito “agarrada” aos meus pais nunca equacionei mudar de cidade. Vivemos todos a cinco minutos (a pé) uns dos outros e é maravilhoso.

 

Em 2014, nasceu o Tomás, o seu primeiro e muito desejado filho. Contra todas as expectativas, o Tomás é portador de Trissomia 21 (T21)… Foi o início da viagem mais inesperada, mas igualmente bela, das vossas vidas?

Sim. Nunca em momento algum desconfiei que algo tivesse menos bem, tive uma gravidez maravilhosa e muito feliz tal como o parto. Mas assim que nasceu e olhei para ele percebi que tinha trissomia 21 e vi-me engolida por um buraco sem fim, contudo ainda sem certezas, apertei-o contra mim e jurei-lhe que tudo faria para que ele fosse feliz e aceite na sociedade. Já eu pensei para mim mesma que não seria a Trissomia 21 que me ia fazer infeliz.


A família constituiu o suporte para que, daí para a frente, nunca desistisse do seu propósito, lutar contra o estigma de todos os que vivem com diferença? Porque muitas vezes a diferença está só na cabeça das pessoas…

E está mesmo. O que é certo é que os meses iam passando e não via grande diferença entre o meu filho e os filhos das minhas amigas. Todos choravam, todos comiam, todos sorriam.

 

Com o nascimento do Tomás, criou o Blog “Tomás, My Special Baby”. Criou-o com o intuito de ajudar outras famílias que pudessem estar a passar pelo mesmo?

Sim. Como disse, à medida que o tempo ia passando eu não via diferenças relevantes. E como infelizmente achavam que o que me tinha acontecido tinha sido uma fatalidade tive necessidade de mostrar à nossa sociedade a realidade da trissomia 21 porque eu sim sabia o que era.


A Andreia provavelmente não sabe, mas a primeira conversa aqui nas Nuvens foi com a Neuza, a mãe da minha querida Leonor, uma menina com T21, que referiu que a Andreia foi uma das ajudas mais preciosas para esta “aceitação”… A Andreia tem noção da importância do seu testemunho e de como acaba por ajudar tanto estes pais?

Tenho alguma noção porque felizmente chega até mim muito esse feedback, para mim é como uma missão comprida. Porque o meu objetivo era mesmo esse simplificar e mostrar que era possível termos uma vida normal e feliz. Tenho conhecimento de mães que ainda na maternidade se agarram ao meu blog e que encontram paz para este novo caminho. E é isso que me dá alento para continuar. Hoje em dia o Blog é uma referência a nível da maternidade e muito para pais com crianças com necessidades especiais.


Criou também a “Desenvolve-t”. Quer explicar melhor em que consiste este projeto, para quem não conhece?

Comecei com terapias desde cedo, entretanto conheci um método de estimulação intensivo que acreditei sempre no seu sucesso. Mas é um método que não existia em Portugal e é muito dispendioso, dessa forma fui tirar o curso juntamente com a terapeuta do Tomás para que o pudesse aplicar em Portugal e dar a oportunidade a todos os pais. No entanto por achar que o método precisa de ser complementado com outras terapias. Criei o Desenvolve-T que dá aos pais um ambiente familiar e todas as terapias importantes para o desenvolvimento da criança (incluindo o método) em equipa multidisciplinar.


E qualquer criança com T21 pode frequentar a Desenvolve-t?

Sim. Todas as crianças com ou sem necessidades especiais podem frequentar o espaço. Por exemplo temos muitas crianças em terapia da fala sem qualquer patologia associada.


Entretanto, foi mãe do Francisco e da Constança. Depois do inesperado com o Tomás, viveu essas gravidezes com mais receio?

Não. Sou uma pessoa muito positiva por natureza, no entanto para que não houvesses medos optei por fazer a amniocentese. Foram sempre gravidezes muito felizes.


Quando olha para os três juntos, sente que lhes deixa a maior e melhor herança do mundo, uma família unida e feliz?

Sem dúvida. Para mim não existe maior herança que essa. Prefiro lhes dar uma vida repleta de amor e de memórias com os irmãos do que uma vida repleta de bens materiais. Costumo dizer que se morresse hoje morria feliz.

 

A verdade é que a Andreia vai partilhando com todos os seus seguidores, no Instagram, que são “apenas” uma família numerosa normal, com três crianças e com tudo o que isso acarreta: uns dias melhores, outros piores, mas no fim, eles são o melhor do mundo…
Verdade. É muito importante mostrar que somos uma família igual a tantas outras. Existe de tudo. Gosto que as pessoas que me seguem, que se identifiquem e não de lhes criar frustração. Eu tanto mostro uma casa arrumada (porque está) como mostro uma casa completamente desarrumada. É importante transmitir que a minha família é perfeita no meio das imperfeições. Para verem um mundo perfeito, sem nódoas, o indicado é comprar uma Vogue por exemplo e não acompanhar o meu blog e redes sociais.


Por fim, a Andreia escreveu o livro “Tomás - Maternidade, Trissomia e Amor: A História de um Bebé Especial”. É importante mostrar que, apesar da luta constante pela igualdade, é possível ser-se muito feliz? Sim. É mesmo muito importante. Eu sei que é mais fácil meter as culpas nos outros ou nas coisas que nos acontecem, mas de facto a felicidade depende exclusivamente de nós. Em momento algum ia deixar a trissomia ganhar-me.


Muito muito obrigada pelo seu testemunho e por nos mostrar todos os dias que a felicidade está sempre nas nossas mãos e na forma como decidimos encarar a multiplicidade de coisas que possam acontecer nas nossas vidas!
Obrigada eu. Eu costumo dizer que tenho o melhor dos dois mundos. A trissomia é apenas uma virgula da nossa vida.
Eu tenho apenas três filhos: Tomás, Francisco e Constança. A Trissomia nunca em momento algum assumiu o comando. O Tomás tem nome próprio.

Um beijinho*

 

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(Foto cedida por Andreia Vasconcelos)

 

Não conheço a Andreia pessoalmente, mas realmente gostava muito. A amabilidade dela e a ternura com que fala são maravilhosas... É realmente genuína e o que vemos nas redes sociais, é mesmo a realidade, sem máscaras ou filtros.

A Andreia é um exemplo de coragem e determinação para que a diferença deixe de ser vista como estigma. Para que ninguém que seja diferente o sinta na pele.

Falar deste assunto uma vez mais tem um propósito: mostrar a todos os que possam estar a passar pelo mesmo que há semrpe uma forma positiva e real de encarar as coisas. Que não é o fim de um sonho, mas sim o início da mais bela aventura de todas: sermos pais.

 

A Andreia é o verdadeiro exemplo do que é ser-se mãe: aceitar os nossos filhos, lutar por eles até ao fim do mundo e estarmos gratas pela benção de os termos nas nossas vidas.