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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 13.09.20

À Conversa nas Nuvens - Carla Alípio

Nuvem

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A infertilidade é um tema que, infelizmente, continua a ser tabu. Para quem a vive e para quem não a conhece. Quase como que um terror do qual mais vale não falar.

Mas tem de ser falada. Tem de ser mostrado que é possível, cada vez mais, vencê-la. A Carla, mãe de dois que a venceu, mostra-nos no seu dia-a-dia, no seu instagram que é verdadeira inspiração. E uma fonte de amor!!!

 

Olá Carla. Nunca é demais agradecer ter aceite falar aqui nas Nuvens! De 2 passaram a 4… Mas não foi um caminho fácil pois não?

Antes de mais agradeço a oportunidade e o carinho.
O caminho não foi mesmo nada fácil. Foi uma luta de 5 anos neste Mundo cruel da Infertilidade.

 

A infertilidade acaba por ser um golpe muito duro para um casal. Como se gere emocionalmente?

Emocionalmente muitas das vezes não se gere. Para um casal ouvir que é necessário efetuar exames para saber de quem é o problema e o porquê de não acontecer uma gravidez é revoltante. Começamos a culpabilizarmo-nos, a sentirmo-nos inferiores, menos homens ou mulheres. Mas acima de tudo o casal tem de se unir muito. O problema não é de um ou de outro, mas sim dos dois. E o nosso lema sempre foi: Juntos somos mais fortes!

 

Houve momentos em que pensaram em desistir? Ou a esperança e a certeza de que iam ser pais falou sempre mais alto?

Sim, houve momentos em que pensei desistir, mas o Nuno (meu marido) nunca sequer pensava nisso. Aliás, ele sempre me deu imensa força. No fundo eu não queria deixar de acreditar que poderia ser possível. Se outras mulheres e casais conseguiram, nós também iríamos conseguir. No nosso caso, sendo Infertilidade desconhecida, era ainda mais difícil de aceitar e compreender, pois, não havia algo a tratar, simplesmente teríamos de ir tentando.


A Carla partilhou que fizeram os tratamentos no setor privado. Não é frustrante que o SNS (Sistema Nacional de Saúde) não consiga dar resposta?

Sim. Felizmente pude fazer os tratamentos no privado. Mas só o fiz pela longa espera no SNS. É frustrante porque a espera “mata-nos” aos poucos. Eu estive 1 ano à espera de uma primeira consulta de infertilidade. A espera é demasiada e os apoios escassos. E para quem não tenha meios de recorrer ao privado infelizmente acaba por desistir no público. Muitas de nós impomos datas para ter um filho e tudo isto deixa-nos numa grande angustia. Eu sempre quis ser mãe ate aos 30 e só fui aos 33, mas vermos os anos a passar e nada...é revoltante! Ter um filho não deveria ter um preço! E por favor que haja mais apoios, com maior rapidez!

 

E como é lidar com o escrutínio dos que nos rodeiam e constantemente perguntam “para quando o bebé”? Muitas vezes as pessoas não têm noção do quanto esta pergunta pode magoar…

As pessoas são muito cruéis. Na nossa sociedade o normal é casar e depois ter filhos. Mas cada um tem o direito de viver a vida à sua maneira. Nós poderíamos até não querer ter filhos. Mas a pergunta: “Então bebés?” é uma facada no coração para quem passa por uma infertilidade. E ninguém tem nada haver com isso, eu sofri imenso com estas perguntas, com determinadas conversas, a minha reação era afastar-me e isolar-me. Não queria estar com ninguém e já não tinha paciência para responder e fingir. 

Quem passa percebe bem o que sentimos, mas muitas pessoas não sabem o dia de amanhã, poderão passar pelo mesmo. Estas pessoas deveriam estar caladas e respeitarem a nossa dor.

 

A verdade é que, no fim, chegaram o Gonçalo e a Mariana! Como foi quando souberam que eram gémeos?

Quando soube que estava grávida, ia preparada para mais um Não! Quando a médica disse um Sim, não quis acreditar, será que era mesmo verdade!? Umas semanas depois é que descobrimos que eram gémeos. Foi um misto de medo, susto e emoção! Não estava nada à espera, mesmo sendo através de tratamento FIV (fertilização in vitro), sempre pensei só conseguir um. Mas foi a maior bênção que poderíamos receber, e depois do que passámos já merecíamos.

 

Ser mãe de gémeos dá muito trabalho…mas é mágico como dizem?

Ser mãe de gémeos é o Melhor do Mundo. Mas também muito desgastante. É tudo a dobrar o que no inicio é muito complicado. Por outro lado, é muito especial ver a cumplicidade que têm, um com o outro desde que nasceram. E dar à luz duas vidas ao mesmo tempo é das coisas mais bonitas.

 

Ao fim de quase 3anos, já conseguem ter tempo enquanto casal?

Isso já é outra história. Realmente ainda não temos muito tempo para nós. Até hoje nunca deixámos os miúdos de noite com ninguém. Mas já vamos conseguindo um almoço ou jantar a dois. Eles são a nossa prioridade, mas não nos devemos esquecer que também somos um casal para além de pais. Não podemos descurar o nosso casamento, é saudável ter momentos a dois. Vamos tentando ter mais aos poucos.

 

Quando criou a página “De2passamosa4” foi com que intuito?

Criámos a página com o intuito de partilhar a nossa história, mostrando que tudo é possível. Que não devemos desistir e de acreditar. Que estamos aqui para ajudar. E também mostrando a nossa vida como pais de gémeos, o mundo mágico dos gémeos!

 

Recebe muitas mensagens de pessoas a passar pelo mesmo que vocês passaram? Qual o melhor conselho para elas?

Sim. Recebo muitas mensagens. E sou tão grata pelo carinho que temos tido. O melhor conselho é unirem-se enquanto casal acima de tudo, procurarem ajuda sem medos. Nunca deixar de acreditar!

 

“A Nossa felicidade encontra-se na felicidade deles”… No fim do dia, mesmo com muito cansaço, é só isso que importa?

Sim. O que importa é os nossos filhos serem felizes e estarem bem. Mesmo nos dias menos bons em que o cansaço é muito basta um sorriso deles e tudo passa. São o melhor de nós, e por eles fazemos tudo. Juntos ( de 2 passamos a 4) somos mais fortes!

 

Muito obrigada Carla. Pelo seu testemunho de esperança mas também pelo amor que transborda em todas as suas publicações!

 

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(Foto cedida por Carla Alípio)

 

Quando um casal decide ter filhos, acho que no início nunca pensa que não vai conseguir (a menos que tenha já razões para isso). Mas, à medida que os meses passam e não se consegue, começa a ansiedade. O medo. Também nós passámos por isso. Demorei meio ano a engravidar e, confesso, começava a achar que não íamos conseguir.

Quando comecei a seguir a Carla, senti mesmo que este era um testemunho essencial para todos. Infelizmente, a infertilidade existe. Está presente mais do que desejaríamos. E tem de ser combatida. Tem de ser valorizada pelo SNS porque é uma doença que tem de ser tratada como qualquer outra. As pessoas sofrem muito com ela. E têm o direito a que seja valorizada a sua dor.

A Carla mostra-nos todos os dias o amor. Um amor incumensurável por aqueles dois seres que lhe trouxeram a maior felicidade do mundo. A Carla mostra todos os dias que, por muitas coisas difíceis que hajam, o amor dos filhos ajuda-nos a superar tudo.