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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 06.09.20

À Conversa nas Nuvens - Carmen Garcia

A Mãe Imperfeita

Nuvem

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Ser mãe também é termos a consciência de que não somos perfeitas. De que todos os dias vamos aprender algo novo. E mal de nós se acharmos que sabemos tudo, pois vai-nos levar a cometer os maiores erros com os nossos filhos.

Se há mãe que mostra bem isso é a Carmen. No seu cantinho, a Carmen mostra que é uma "Mãe Imperfeita", naquele que é um dos blogs de maternidade mais giro e engraçado desta Blogosfera.

Queria muito que ela viesse aqui às Nuvens e ela aceitou! Vamos conhecê-la!

 

A Carmen auto-intitula-se de mãe imperfeita. Mas, não somos todas?

Ser acho que somos… A verdadeira questão é: será que conseguimos aceitar esse facto? Acho que durante demasiado tempo a perfeição foi sobrevalorizada e muitas mães quase enlouqueceram na tentativa de se tornarem perfeitas. A ideia de criar “A Mãe Imperfeita” foi muito no sentido de assumir que não faz mal não ter sempre os filhos impecavelmente vestidos e penteados, a consumirem papas caseiras de aveia biológica e a fazerem actividades altamente pedagógicas não sei quantas horas por dia… Assumir a imperfeição é libertador. A noção que sempre quis transmitir é que o mais importante é termos filhos e mães felizes; o resto vamos gerindo, uns dias mais facilmente e outros com maior dificuldade. E quando me libertei a mim acho que tentei que outras mães se libertassem comigo…

 

O facto de haver mães a autoproclamarem-se melhores que as outras é de deixar os “nervos em franja”?

Vamos ver… Eu sou uma mulher que se enerva com facilidade, não é preciso muito para me deixar com os nervos em franja (risos)... Mas sim, a comparação entre mães é uma coisa que me adoece. Há umas quantas mulheres/mães que parecem ter a necessidade de se superiorizar às outras, chega a ser quase patológico. Ainda há dias assisti num grupo a uma mãe que lançou o tema da obesidade infantil para o ar e aproveitou para mostrar às outras mães todas que ela é que era uma excelente mãe porque fazia refeições assim e assado e não dava isto e aquilo aos filhos. E sabes o mais idiota? É que em termos científicos disse disparates intermináveis, um chorrilho de tolices que, ainda para mais, são perigosas… Mas enfim, deve ter ido dormir a achar que era a melhor mãe do mundo.

 

Como é que se passa de querer ser professora de ballet para a enfermagem?

Eu adorava saber responder a esta pergunta, mas não sei mesmo. Sei que existe muito a ideia de que a enfermagem é uma vocação e tudo o mais, mas a verdade é que fui lá parar quase por acaso. A ideia era fazer um ano do curso e ver no que dava, mas gostei tanto que decidi continuar… Hoje, se me perguntares, não acho que tenha feito uma boa escolha. A enfermagem é uma profissão absurdamente desrespeitada neste país. Trabalha-se muito e ganha-se muito mal. Comecei a trabalhar no hospital em 2009, há onze anos, e não trago mil euros líquidos para casa… Estou cansada.

 

A Carmen escreveu “Ter nas mãos um teste de gravidez positivo é mais ou menos como comprar um bilhete só de ida para um mundo de preocupações permanentes.”. Esse mundo melhora ou com os anos só tem tendência a aumentar?

Ainda não comecei a sentir a vertigem a diminuir. O Pedro tem três anos e o João está quase com dois, ainda são muito pequenos. Além disso, a surdez do Pedro não tem ajudado a um caminho tranquilo. Ainda assim, tenho muita esperança que isto comece a melhorar….

 

Com o segundo filho aprende-se a relativizar muitas dessas preocupações ou, pelo contrário, passam a ser em dobro?

Olha, a chegada do João aqui a casa não foi fácil. Senti que estava a trair o Pedro e ainda hoje, quando choram os dois e eu tenho que escolher quem “socorrer” primeiro, me sinto muito culpada. A culpa claramente aumentou. Por outro lado, como bem dizes, começamos a relativizar muita coisa. Se não há tempo para grandes jantares comem esparguete com salsichas, se não dá para tomar banho fazem uma higiene parcial, se caem ou brigam e eu vejo que não é nada de grave fico à espera que se desenrasquem sozinhos… Nessas coisas mais práticas claramente fica mais fácil.

 

A Carmen também já confessou que tinha uma relação de muita proximidade com a Igreja que se transformou após o seu divórcio. Isso abalou a sua fé?
Não. A minha fé é uma coisa muito pessoal e, tendo passado por algumas crises, vai sobrevivendo. Depois de me divorciar (tive um primeiro casamento do qual não resultaram filhos), contudo, senti que a minha Igreja, a comunidade onde cresci, me encostou num canto. E repara, são as regras do jogo, eu aceito isso… No futebol, ao segundo amarelo, também vais para a rua. As regras são essas, são claras, estão escritas. O que já me custa mais a aceitar é que essa mesma Igreja decida que os meus filhos também têm que pagar pelo meu “erro” e não os deixe baptizar, por exemplo…

 

Quando criou o Blog “A mãe imperfeita” alguma vez sonhou no sucesso em que ele se tornou? Porque a verdade é que é um dos blogs de maternidade mais visitados!
Não sei bem se podemos chamar sucesso, mas sim, o feedback tem sido muito acima do que alguma vez imaginei, especialmente nas redes sociais. Infelizmente agora esta história do Instagram hackeado fez-me começar tudo de novo nesta plataforma o que foi bem duro…

 

Já escreveu vários livros, como foi essa experiência?

A escrita é o sonho da minha vida e o que eu gostaria de fazer para sempre e, como tal, escrever é sempre um processo de prazer imenso. “Os dez mandamentos de uma mãe imperfeita” foram uma verdadeira loucura porque a editora fez-me uma proposta maluca em que tinha que ter um livro de raiz escrito em dez dias. Quando me sentei à secretária só pensei “o que é que eu gostava que me tivessem dito quando engravidei?” e a partir daí o livro nasceu. Foram dias muito felizes. O romance (que terá continuação) foi um processo diferente mas que também me deu muito prazer. E ficas a saber que mais para o final do ano chegará um projeto totalmente novo. Mas ainda está no segredo dos deuses.

 

Tem muitas mães a pedir-lhe conselhos? Sente que se tornou num exemplo para muitas delas?

Não quero nada que me vejam como um exemplo, nem pensar. Quero ser vista como uma delas, como mais uma mãe que está na luta, todos os dias, às vezes cheia de monstros na cabeça e a engolir lágrimas e outras vezes a conseguir rir disto tudo. Eu sou uma mãe igual às outras e a verdade é que não tenho grandes conselhos para dar. Mas estou sempre aqui para ouvir quem me procura e para dizer que nenhuma mãe está sozinha, nunca.

 

Como diz a Cármen, “A maternidade tem um lado menos romântico”. Apesar disso, é sempre o conto de fadas mais bonito de se escrever?
Que ninguém tenha dúvidas sobre isso… Aliás, basta olharmos para os nossos filhos a dormir e a resposta é mais que óbvia.

Muito obrigada mais uma vez!

 

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(Foto cedida por Carmen Garcia)

 

Numa blogosfera cada vez mais cheia de tudo, às vezes é difícil marcar-se a diferença. Acima de tudo, porque muitas vezes parece querer mostrar-se só o que é bom..e isso não é real.

Uma das coisas que mais admiro na Carmen é a forma realista e natural como ela mostra tudo o que quer partilhar: sem filtros, o bom e o mau do que é viver com dois filhos. E isso é a realidade de todas as casas...porquê esconder?

Na sua forma descontraída mas realista, a Carmen acaba por me ensinar muitas coisas e a relativizar. Sim, que nisto da maternidade acho que o importante também é irmos aprendendo a relativizar... Só assim conseguimos desfrutar das coisas boas que a vida nos vai dando. E sim, ser-se mãe ou pai é extremamente cansativo. Há dias dos diabos. Mas também é mesmo o melhor do mundo!

A Carmen é também o retrato dos profissionais de saúde que precisavam mais do que palmas...mas essa é conversa para outro post!

Nos livros que vai escrevendo (vem aí outro, preparem-se!), acaba por nos ajudar a relaxar e mostrar que está tudo bem em às vezes estar tudo mal! E mostra, acima de tudo, que mãe e pais, somos todos. Todos os que todos os dias lutamos para dar o melhor aos nossos filhos. Todos os que todos os dias trabalhamos para os educar. Todos os que todos os dias sabemos que os filhos serão sempre o nosso final feliz.