Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 23.08.20

À Conversa nas Nuvens - Carolina Bidarra

Nuvem

111284421_2639053446348845_4634820059094111342_n.j

A Ana Carolina Bidarra é enfermeira. De profissão e coração, já que dá tudo de si todos os dias. É um verdadeiro exemplo de quem está por amor à camisola. E numa altura como esta, ter profissionais de coração é tudo para quem precisa de cuidados! Vamos conhecê-la!

 

Olá Ana. Antes de mais, muito obrigado por aceitares este desafio! És enfermeira… Sempre foi o que sonhaste ser?

Olá, obrigada eu por me convidares para participar nesta tua iniciativa. Bem, não posso dizer que foi sempre um sonho ser enfermeira, acho que essa vontade apareceu, da minha avó paterna, que sempre dizia que gostaria que algum dos netos seguisse área da saúde, porque ela era, nos tempos antigos, enfermeira e médica de todos na aldeia e eu adorava ver isso... Adorava vê-la conseguir tratar e resolver situações que para os familiares eram coisas graves e sem resolução. Então acho que me comecei aperceber que gostava de ser como ela, que é sempre o que as crianças pensam, mas queria mesmo ser como ela, queria ajudar os outros e fazer com que estes se sentissem bem. E tenho a certeza que foi a minha melhor opção porque acho que não me via noutra profissão neste momento.


Trabalhas num lar de idosos; trabalhas todos os dias para combater aquele estereótipo de que as pessoas que estão num lar não são bem tratadas? Porque a verdade é que assistimos quase todas as semanas a notícias de maus tratos a pessoas idosas…

Sim. Eu sempre adorei trabalhar com idosos, muito mais do que com crianças. E desde que iniciei nos lares, preferi manter-me por aí, porque me sentia realizada enquanto profissional e enquanto pessoa. Temos de saber ouvir de tudo e lidar com tudo... Obviamente que nem todos os lares são iguais e não funcionam da mesma maneira, bem como, nem todos os utentes e famílias são iguais! Eu acho que para não passarmos esse estereótipo é necessário deixar o idoso e as próprias famílias, verem, saberem de tudo o que se passa e poderem acompanhar certas rotinas dos mesmo, para que consigam ganhar confiança em nós.


Sentes que tu e todos os que lá trabalham acabam por ser o grande suporte deles?

Sim, principalmente na situação atual em que nos encontramos. Nós somos as pessoas com quem eles passam mais tempo, com quem lidam diariamente, com quem fazem as principais atividades diárias. Muitas vezes isto faz com que haja muitos assuntos que eles prefiram falar connosco do que com as próprias famílias; por um lado isso é muito gratificante, sabes que confiam em ti. Mas tanto nós somos um pilar para eles, como eles para nós, há dias em que não estamos bem, e  precisamos de conforto e recebemos da parte deles isso. É ótimo!


Como é que foi, nesta altura de pandemia de COVID-19, lidar com a tristeza dos teus utentes por não poderem receber as visitas dos seus familiares? 

Foi muito difícil lidar com toda esta situação, não só com as famílias, mas também com a parte de não poderem sair das instalações, não poderem ter contacto físico com outras pessoas. Em relação às famílias optámos por outras soluções, como vídeo-chamada para amenizar as saudades, não era igual, mas ajudava. Mas como é óbvio isso não é a mesma coisa, e tivemos de aprender a lidar com isso... Muitos ficaram em estado depressivo o que nos assustou um bocado por ser um grupo idoso e a depressão não ajuda nunca! Mas realizámos atividades lúdicas para ajudar nessa depressão e temos conseguido ultrapassar as dificuldades...

 

Tu própria acabaste por estar afastada da tua família para não os colocares em risco… Como foi lidar com as saudades?

Sim, estive cerca de 2 meses e meio afastada da minha família. As saudades foram muitas, sem dúvida, é difícil aguentar certas situações em que precisava de apoio dos mais próximos e não ter! Mas pronto, a vida por vezes é injusta, mas eu sabia que era o melhor para todos, eu não queria colocá-los em risco e eles igualmente a mim. E o facto de trabalhar numa IPSS em contacto diário com um grupo de elevado risco foi decisivo para tomar esta decisão: eu não poderia mesmo colocá-los em perigo! Custou, mas o amor supera tudo.


Com todas as medidas que tiveram de ser implementadas, sentes que o teu trabalho foi dificultado?

Sim, o trabalho foi dificultado, sem dúvida. Nós na instituição optámos por fazer 2 equipas de trabalho, trabalhávamos 7 dias seguidos 10h diárias, ou seja, não era só fazer o meu trabalho, tínhamos toda uma equipa que estava ali para o mesmo, para ajudar e apoiar os que precisavam mais naquele momento. Por isso, houve momentos que tivemos de trabalhar em conjunto para eles. Acho que tudo nesta fase se tornou mais dificultado porque era uma situação de puro stress, para nós, para os idosos e os familiares então tivemos de dar muito mais de nós diariamente para não trespassar esse stress e medo do que se passava lá fora... Houve vários momentos que nos apetecia chorar por não estarmos juntos dos nossos, mas tínhamos de sorrir, mostrar aos nossos idosos que estávamos bem, acho que foi neste sentido que tudo foi mais dificultado.


Continuam a existir famílias a abandonar os seus idosos e a não visitá-los?

Bem em relação do abandono, graças a Deus na IPSS onde estou de momento não vivemos isso, todos os familiares se mostram disponíveis e com interesse nos nossos idosos, obviamente que uns mais que outros, mas isso é como tudo na vida... Agora nesta fase, obviamente que muitos emigrantes com os seus pais, avós, etc. nas instituições não puderam visitá-los, mas têm outra forma de o fazer na nossa instituição através da vídeo-chamada em que as saudades se acalmam.


No fim do dia, sentes que aprendes sempre algo com os teus pacientes? Há sempre uma lição a retirar?

Sim, sem dúvida. Eu sempre adorei trabalhar com idosos, porque nos ensinam diariamente. Eles mostram-me que não é preciso um bem material para estarmos felizes, por vezes basta um "obrigada", um sorriso sentido, um toque por parte deles para o dia ser o melhor de sempre. Acho que os idosos nos mostram que temos de dar valor ao que temos e amarmo-nos uns aos outros, sempre!


Por fim, obrigada pelo teu trabalho e dedicação! Há alguma coisa que queiras acrescentar?

Obrigada eu também por esta oportunidade. Acho que a única coisa que quero acrescentar é que, não vamos abandonar os nossos idosos e muito menos maltrata-los, eles fazem parte de nós e da nossa vida!
Protejam-se e protejam os que mais amam! Afastados fisicamente, juntos sempre no coração!
Obrigada!

106507740_919341568537867_2669162863019984100_n.jp

(Foto cedida por Ana Carolina Bidarra)

 

Ser profissional de saúde nesta altura de pandemia foi mau. Foi difícil. Foi extenuante. Mas a verdade é que o é muitas vezes, mesmo que não haja pandemias... As palmas aquecem o coração de quantos passaram os dias a trabalhar para que nada faltasse a quem mais precisa, mas muitas vezes não chegam para confortar as saudades...

A Ana foi uma das primeiras pessoas que quis entrevistar. Achei que poderia ser um belo testemunho de como é e foi lidar todos os dias com pessoas mais idosas, mas não inúteis. Que merecem o nosso amor, o nosso carinho, a nossa atenção.

Não me enganei. Mas sabia ao que ia. A Ana é uma das pessoas que tenho há mais anos na minha vida. Sei que se dá por inteiro ao seu trabalho. Sei que está lá de coração. E, quando assim é, só podemos esperar uma grande profissional, para além da excelente pessoa e amiga que é.

Se bem se lembram, já na primeira "temporada" destas conversas eu tinha entrevistado a Jess, enfermeira emigrante e a , que trabalha como diretora técnica numa instituição que também dá apoio aos seus "velhinhos" como carinhosamente ela os trata.

A verdade é que este continua a ser um tema do nosso interesse e sobre o qual temos de estar alerta. 

 

O trabalho da Ana é incrível. Como o de todos os que, com carinho, respeito e amor, tratam dos mais velhos como se fossem seus. Um bem-haja a todos!

Comentar:

Mais

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.