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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Qui | 24.01.19

À Conversa nas Nuvens - Catarina Duarte

Nuvem

Ser assistente de bordo é para muitos um sonho. Catarina Duarte, de 28anos, nunca sonhou com isso. Tinha como sonho a medicina...a média não o permitiu e licenciou-se em Anatomia Patológica. Sete anos após acabar o curso, já está há quase 5anos na aviação, há quatro na TAP, a companhia aérea nacional. O que a torna ainda mais diferente? Não tem qualquer rede social... e é feliz com isso!

 

Olá Catarina. Como é ser assistente de bordo na maior companhia aérea portuguesa?

Olá! Agradeço desde já o convite feito e sinto-me lisonjeada por poder partilhar a minha experiência contigo e com o teu público.

Ser Assistente de Bordo da TAP é um ORGULHO! É com uma enorme felicidade que visto as cores do meu país, levo o nosso idioma a vários sítios do mundo, e faço propaganda do que de melhor temos para ser visitado no nosso país. E é para mim uma honra poder fazê-lo numa das companhias aéreas mais seguras do mundo, com os valores que mais me identifico e que tanto preza o conforto e satisfação dos passageiros lutando para corresponder às suas expectativas, sem nunca descuidar o bem estar dos seus funcionários. 

Sou tão feliz enquanto assistente de bordo que quando visto a minha farda inevitavelmente fico com um enorme sorriso e ainda sinto borboletas na barriga cada vez que recebo os meus passageiros dentro de um avião.  Aliás ainda agora no Natal a TAP criou um vídeo de Natal que passa durante o embarque de passageiros e eu fico sempre de lágrima no canto do olho de tanto orgulho de pertencer a esta Família.

 

Tens uma licenciatura na área da saúde. Achas que apesar de ser muito distinto do teu trabalho, é uma mais valia para o mesmo?

Sem dúvida que é uma mais valia porque me dá muito mais confiança e noção para avaliar as situações que me vão surgindo no dia-a-dia de trabalho e que infelizmente são frequentes.

Os passageiros adoecem tanto “em terra” como “no ar”. Em terra podemos chamar o 112 ou levar a pessoa ao hospital e a responsabilidade rapidamente passa para outra pessoa. A bordo de um avião as pessoas também adoecem, podem ter AVC’s, paragens cardiorespiratórias, ou até uma grávida entrar em trabalho de parto... e aqui não podemos simplesmente chamar o 112. Todos os tripulantes de cabine têm formação de socorrismo para poderem lidar com estas situações a bordo e avaliarem a situação de forma adequada para que o Comandante possa tomar a decisão de aterragem de emergência... Se estivermos a sobrevoar o Oceano Atlântico ou África podemos demorar horas até ao aeroporto mais próximo e nesse caso somos nós tripulantes que estamos lá para assegurar lutar pela vida do passageiro.

Saliento ainda que a maior parte dos tripulantes de cabina da TAP são licenciados (até porque a idade mínima e entrada é aos 21 anos) nas mais diversas áreas possíveis e temos uma rubrica na nossa revista de bordo trimestral, a UP, sobre este tema, onde os tripulantes partilham de que forma as suas licenciaturas são úteis nesta profissão.

 

Há 50anos atrás ser assistente de bordo era visto como um sonho para a grande maioria das raparigas. Achas que ainda continua a ser?

Não. Atualmente é muito raro encontrar alguma adolescente que tenha esse sonho porque culturalmente os jovens crescem com a ideia de que têm de escolher um curso de faculdade e não existe nenhum curso na faculdade para tripulantes de cabine. O que acontece é o jovem quando termina o curso e procura emprego, começar a questionar essa hipótese e acaba por se inscrever e vir a entrevistas. O curso é dado pela TAP. Hoje em dia já não existe limite máximo de idade para concorrer e estamos a assistir à entrada de muitas pessoas de faixas etárias dos 30 aos 50 anos que estavam descontentes com os seus percursos profissionais e essas sim tinham este sonho!

 

O que mais te motiva no teu trabalho? E qual o pior para ti?

O que mais me motiva é o facto de todos os dias trabalhar com pessoas de culturas diferentes, não ter uma vida rotineira nem monótona. Nem os colegas que formam a equipa de trabalho de um voo se mantêm no próximo voo (o que é ótimo quando não gostamos do chefe!)

O pior é mesmo coordenar esta falta de rotina com a família e os amigos... não conseguimos estar presentes sempre que queremos porque trabalhamos em todas as datas festivas. Por vezes falhamos um Natal em casa, os aniversários, as festas de escola dos filhos... é sem dúvida o que custa mais...

 

Consegues recuperar do jet-lag?

Nem sempre é fácil... são muitas noites perdidas a trabalhar associadas ainda às diferenças horárias... por vezes surgem distúrbios de sono, cansaço mental... é muito importante gerirmos de forma adequada os nossos descansos e temos inclusive formações sobre esse tema para minimizarmos ao máximo os efeitos do jet-lag.

 

Com horários tão diferentes, é possível para uma assistente de bordo constituir família? Continua a ver-se como uma profissão para solteiros...

Claro que sim! Eu ainda não constituí família por não ter encontrado a pessoa certa mas a maior parte dos meus colegas têm marido/mulher e filhos. Claro que é uma logística familiar ou pouco diferente da tradicional mas perfeitamente possível. Aliás são raros os colegas que só têm um filho!! A maior parte das pessoas não sabe mas a TAP tem ótimas regalias para os “papás”, um verdadeiro incentivo à natalidade.

 

Até hoje, qual foi a pior coisa que um passageiro já te fez?

Assédio. E infelizmente são algumas as faltas de respeito pelo nosso trabalho... Ainda são muitas as pessoas que não percebem que estamos a bordo para assegurar a segurança dos passageiros.

 

Qual o sítio onde já foste por conta da tua profissão que mais te impressionou?

Ilha da Ascensão, uma pequena ilha no Atlântico maravilhosa que apenas é habitada pela Força Aérea do Reino Unido, ou seja, se não fosse em trabalho nunca lá poderia ter ido. Na altura trabalhava na Hifly, um tipo de aviação diferente mas uma experiência que adorei.

 

Tens 28anos, és uma rapariga muito bonita e não tens qualquer rede social. Tens noção do quão raro isso é hoje em dia? 

Sim, tenho! Constantemente recebo comentários que me lembram o quão raro isso é! “Não tens redes sociais?! Tu existes?! És esquisita...” Enfim...

Claro que as redes sociais permitem a partilha de muita informação útil e agradável mas é muito importante saber gerir o tempo e a importância que se dá a esse tipo de apps... quantas vezes não janto ao lado de casais que nem conversam porque está cada um ligado à sua app? Quantas pessoas vivem infelizes ou frustradas com a vida porque vêm todos os dias vidas “melhores” expostas nas redes sociais?

Sou muito feliz sem redes sociais e não sinto qualquer falta, vivo a minha vida sem olhar para a vida dos outros, com imenso tempo para auto-conhecimento e não perdi amizade nenhuma, muito pelo contrário, senti uma maior aproximação e comunicação com os meus amigos porque passaram a ligar-me e a mandar sms para saber como estou em vez de se limitarem a seguir-me nas redes sociais e eu também!

Quanto à informação útil e agradável disponível nas redes sociais normalmente esse tipo e páginas até são públicas por isso não perco o acesso a elas.

 

Sofres algum tipo de pressão por não teres redes sociais? Ou discriminação?

Imensa! Todas as semanas oiço comentários, ou alguém me pede as minhas redes sociais e ficam em choque por não ter.

 

Na tua opinião, perde-se mais tempo com o virtual do que se devia?

Sim, quantas pessoas acordam e ficam a ver as redes sociais na cama? E se usarmos esse tempo para pensar no que de positivo podemos fazer para nós e para os que nos rodeiam nesse dia?

Mas mais preocupante do que o tempo que se perde são os valores que se alteram, sinto que a inveja, a frustração, a necessidade de viver para aparências aumentam e isso deixa-me muito triste.

Por vezes estou em sítios maravilhosos no mundo e quando olho em meu redor vejo as pessoas agarradas a smartphones mais empolgadas em postar nas redes sociais do que a VIVER e DESFRUTAR o momento ou o local...

 

Por fim, obrigado pela tua disponibilidade. Algum conselho a quem queira ser assistente de bordo, o que fazer?

Aconselho a procurarem na internet os requisitos necessários para cada companhia aérea, escolherem aquela com que se identifiquem mais e concorram. Existem cursos para tripulantes de cabine em escolas de aviação em Portugal mas também existem companhias que dão os seus próprios cursos. A fluência em inglês é OBRIGATÓRIA na aviação, e o mais importante é gostarem de trabalhar com pessoas!

Muito obrigada pelo convite e foi uma honra poder fazer esta partilha! Muitas felicidades!!

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(Foto cedida por Catarina Duarte)

A Catarina é uma força da natureza. E mostra que, por muito que gostemos da nossa profissão, podemos ser ainda mais felizes noutra. Abraçou a aviação como o seu maior amor profissional, ultrapassou barreiras que nem ela própria se achava capaz e, é hoje, uma assistente de bordo exemplar. Acredita como ninguém no seu trabalho.

E é tão feliz.

É das mulheres mais bonitas que conheço, mas não se deixa deslumbrar nem influenciar. Escolheu apagar todas as suas redes sociais quando a sua vida deu uma volta de 180 graus. E é tão mais feliz. Aproximou-se dos que realmente valem apena.

E mostrou-nos a todos que, quem realmente interessa, não está só atrás de um computador ou de um telemóvel. Está presente sempre nas nossas vidas.

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