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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 04.10.20

À Conversa nas Nuvens - Cátia Rato

Nuvem

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A Cátia é uma daquelas pessoas que parece que tem de lutar sempre o dobro das outras pessoas para alcançar os seus objectivos. Mas sabem o melhor? É que consegue tudo a que se propõe. É uma verdadeira força da natureza. E merece que todos a conheçam!

 

Como é que uma menina do Alentejo, chega à grande Lisboa: com mais medo e insegurança, ou com mais vontade e força de querer?

Uma miúda de 18 anos, que nunca visitou Lisboa como deve ser, vê-se completamente sozinha na cidade, contra a vontade do pai. Nos primeiros 15 dias, fiquei doente e não havia mãe. Nem chá tinha para fazer. Perdi-me de noite ao sair do comboio e não sabia usar o metro. Tinha um namorado na altura que acabou por ser o meu grande apoio. Mas ao fim de uns meses as coisas foram melhorando porque queria mesmo que tudo desse certo.

 

A verdade é que sempre tiveste de lutar muito para conseguires, até, tirar o teu curso. Tiveste momentos de querer desistir?

Claro que tive. Cada época de exames era pior que a anterior. A luta para garantir que fazia sempre os créditos que precisava para não perder a bolsa de estudo. As férias eram para estudar para os exames, ou para ir para o restaurante trabalhar. Depois começaram-me a aparecer alguns problemas de saúde e, no último ano, foi mesmo complicado. Lembro-me de pensar “se a minha mãe consegue, eu também consigo”, e foi assim que me aguentei à bronca.

 

Os vários trabalhos que foste tendo para ajudar a pagar as contas deram-te força para saberes realmente o que querias para a tua vida?

Deram-me a noção do tipo de vida que não queria. Deram-me a perspetiva necessária para pegar nas capacidades que fui ganhando ao longo dos 5 anos de ensino superior e utilizá-las para ir para o caminho que queria seguir. A ideia sempre foi: se não te sentes confortável, vais fazer e aprendes. Porque é isto que ajuda uma pessoa a crescer e saber o que quer no futuro.

 

Mesmo quando ninguém acreditava que ias ser capaz, mesmo os mais próximos… chegaste a acreditar neles?

Eu, como boa filha que sou, herdei o feitio do meu pai. Para o bom e para o mau. Então cada vez que alguém questionava algum plano que eu fazia, só ajudava a minha vontade de vencer. Provei a toda a gente que era capaz.

 

Hoje em dia trabalhas numa área (programação e informática) que é, por agora, dominada pelo sexo masculino. Foi difícil a “miúda” afirmar-se?

É um facto que estou constantemente rodeada de homens. Estava à espera de ter que me afirmar mais. Nunca ninguém questionou uma ideia minha por causa do meu género. Nunca ninguém deixou de me ouvir por ser mulher. Nem a nível de colegas de trabalho, nem a nível de clientes. Já quando trabalhava no restaurante, a história era outra. O facto de seres uma mulher a servir às mesas torna-te alvo imediato de atenções não desejadas, que não podes recusar de forma assertiva sem dar prejuízo ao patrão...

 

Alguma vez sentiste que o facto de seres mulher deixava nos teus clientes uma margem de dúvidas da tua qualidade profissional?

Nunca. Aliás, cada vez mais sinto que estão cada vez à vontade comigo para me ligar diretamente para resolver as coisas de forma mais rápida.

 

Nos dias mais difíceis, queres sempre voltar ao Alentejo, ou hoje em dia, a tua casa já é em Lisboa?

A minha casa, para infelicidade dos meus pais, é em Lisboa. Mas quando estou extremamente frustrada ou cansada, dou por mim a murmurar “Mãe, mãe, mãe”. No entanto, sempre preferi lidar com as coisas sozinha e nunca fujo para casa dos meus pais.

 

Sei que para ti, por questões familiares, esta altura de pandemia foi particularmente difícil. É difícil ver que o SNS nem sempre consegue dar a resposta que querias que desse?

É horrível. É absolutamente horrível ver as pessoas que amamos a definhar, não podermos fazer absolutamente nada para ajudar e ainda encontrarmos barreiras ao nível do SNS que nos impedem de resolver a situação. Há profissionais muito maus a atender as chamadas do 112. No entanto, basta-nos ter acesso a um bom médico (que felizmente temos) para conseguirmos ver uma luz ao fundo do túnel.

 

Depois de todas as dificuldades porque passaste, és hoje uma pessoa melhor?

Não diria melhor. Sou uma pessoa mais completa. Mais decidida. Mais capaz de lidar com o bom e com o mau. Isto veio tudo das experiências que tive a partir do momento que comecei a trabalhar naquele restaurante e entrei para a faculdade.

 

Sentes que foi tudo isso que te tornou a pessoa lutadora que és hoje

Acho que a parte lutadora sempre cá esteve. Simplesmente estava disfarçada por uma miúda assustada e pouco confiante.

 

Tens um emprego estável, uma casa tua…. As tuas vitórias (que têm sido tantas!) sabem a quê?

A paz de espírito. Se há coisa que aprendi nos últimos 9 anos, foi que a seguir ao suor e às lágrimas vem sempre a paz de espírito. E que as adversidades nos fortalecem.

 Obrigada!

 

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(Foto cedida por Cátia Rato)

 

Não conheço a Cátia pessoalmente. Nunca a vi. Mas acompanho-a aqui na Blogosfera há tantos anos, que a sinto como minha. Poderão achar exagero, mas é verdade. Acompanhei esta mudança para Lisboa, todas as dificuldades que foi passando, as tristezas pela falta de saúde dos que lhe são mais próximos, as alegrias que vai tendo com os sobrinhos, as suas conquistas!... É minha. E como minha, tenho um enorme orgulho nela.

A Cátia é o melhor exemplo para todos estes jovens que vão sentindo dificuldades e não sabem se vão conseguir... E para todos nós, que por vezes não damos valor ao que temos: pais saudáveis, o podermos tirar um curso sem nos preocuparmos em pagá-lo, o podermos desfrutar das férias sem ter de trabalhar.

 

A Cátia é um exemplo. Mas sei que não é caso único. Sei que há muitas Cátias por aí.

Mas esta é a que eu conheço. E que agora vocês também!

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