Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Qui | 14.03.19

À Conversa nas Nuvens - Joana Coelho

Nuvem

Deixar o Norte para ir estudar para Lisboa nem sempre é fácil. Mas a Joana adaptou-se como ninguém. No fim da sua licenciatura, e porque não é mulher de baixar os braços, sem emprego por cá, foi trabalhar para Inglaterra. Tirou mestrado e esteve por lá 5 anos e meio, com o maior sucesso profissional. Mas os sonhos não se esquecem...e este ano voltou… para ir estudar Medicina. É um exemplo de força e determinação!

 

Olá Joana...Os Xutos cantavam que "De Bragança a Lisboa são 9h de distância ". Eram intermináveis para ti?

Em primeiro lugar obrigada querida pelo convite! É com muito carinho e sentindo-me uma privilegiada que abraço esta conversa.

Respondendo à tua primeira pergunta... Uiiiii, como eram intermináveis! Não eram 9 horas, mas pouco faltava! 15 horas de idas e voltas que fazia a cada 2 semana para matar saudades da minha terrinha. Como ainda continua a acontecer, a rede de transportes para o interior é péssima, assim que os mais de 40 anos de carreira dos Xutos apenas tiraram 2 às 9 horas de viagem entre Bragança e Lisboa

 

Uma menina do norte consegue sentir-se em casa em Lisboa?

Uma menina do Norte consegue sentir-se em casa em Lisboa! São é duas casas diferentes, com significados também eles diferentes. Bragança foi, é, e tenho para mim que sempre será, o meu porto de abrigo, o meu cantinho, o meu refúgio predileto. Como lhe chamou Miguel Torga, Bragança é aquele “Reino Maravilhoso” onde vou querer sempre voltar. Lisboa por outro lado foi sinónimo de mudança, liberdade, crescimento e conhecimento. Fui tão feliz!! Acima de tudo por causa das pessoas! Das melhores que já conheci. Acredito que ser do Norte me ajudou a sentir-me em casa por lá. As gentes do Norte gostam muito de pessoas, apegam-se facilmente e se estiverem rodeadas por gente boa, como eu tive a sorte e o privilégio de estar, tudo se torna mais fácil.  Lisboa ofereceu-me isso!

 

Foi difícil a decisão de emigrar?

Emigrar foi a decisão mais difícil que já tomei. E embora lhe chame decisão, porque foi obviamente uma escolha minha, foi uma escolha forçada, uma resposta necessária à falta de condições de trabalho no meu país. Quem me conhece sabe o apegada que sou à minha família, às minhas amizades, algumas com quase tantos anos como eu, à proximidade que tento manter nas relações que estabeleço. Quem me conhece sabia que a minha decisão precisava de um grande apoio, precisava de uma força extra para correr bem. E tal como ao longo de toda a minha vida, tive nesse momento as pessoas certas ao meu lado, que incansavelmente me deram a força necessária para começar uma das maiores aventuras da minha vida.

 

Como foi viver em Inglaterra?

Viver em Inglaterra foi agridoce. Foi sentir que crescia a cada minuto, não só profissionalmente, mas também como pessoa mais independente, mais madura, mais consciente das minhas responsabilidades e de certos sacrifícios que até à altura desconhecia, mas ao mesmo tempo foi também sentir que estava a perder tanto em Portugal. E este sentimento não só de saudade, mas que eu associava a perda, fez com que a minha experiência fosse um pouco mais dura. Para além disso, senti uma grande diferença cultural. Pelo meu olhar, a cultura inglesa é muito mais desligada de afetos, de proximidade. As relações que se estabelecem não são tão espontâneas, e a verdade é que estranhei muito isso.

 

A vida é realmente melhor lá?

A nível profissional a vida é realmente muito melhor lá. Fui imensamente bem-recebida em todos os laboratórios em que trabalhei. Os colegas fizeram um enorme esforço para me perceber no início (assumo que o meu inglês era péssimo) ahahaha. Fui sempre incentivada pelos meus superiores a continuar a minha formação, sendo que o meu mestrado foi totalmente subsidiado pelas minhas entidades patronais, tanto pelo hospital público, como pelo centro de investigação privado. Fui verdadeiramente feliz profissionalmente! E é com muita pena que admito que outro país me deu algo que o meu país provavelmente nunca me conseguirá dar.  A nível pessoal nunca consegui alcançar essa felicidade, o que nos leva à tua próxima questão.

 

Trabalhar no que gostavas compensava as saudades da família e amigos?

Trabalhar no que gostamos ajuda sempre a que a nossa vida seja mais harmoniosa, mas a verdade é que não é suficiente, pelo menos não foi para mim. Confesso que sou uma “menina do papá”, que a minha vida sempre teve como maior pilar a minha família e amigos, e que sou feliz rodeada de gente. Esta saudade imensa foi sempre o meu maior obstáculo. Sabia que tinha de regressar ao meu país para ser plena.

 

De repente, trocas o frio de Inglaterra pelo calor do nosso Algarve... Foi a maior decisão da tua vida?

Foi das maiores decisões, sim! Aquela que, provavelmente, irá mudar para sempre o seguimento da minha vida.

 

Medicina era o sonho de criança que nunca conseguiste esquecer?

Não posso dizer que Medicina era o meu sonho de criança, já que não fui uma daquelas crianças/adolescentes que cresce convicta que quer ser médica. Ao longo dos anos fui mudando a minha opinião imensas vezes no que diz respeito à profissão. Desde astrónoma a jornalista, passando por juíza ou professora de educação física  Mas médica foi aquela que mais vezes me ocupou o pensamento. Quando terminei o secundário, a minha média não chegou para entrar em Medicina e Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica foi a minha segunda opção. Correu tão bem e estava tão feliz em Lisboa, que não voltei a tentar Medicina no ano seguinte. Mas a verdade é que o “bichinho” sempre andou por aqui e foi crescendo, especialmente nestes últimos anos. Embora verdadeiramente orgulhosa do meu percurso profissional enquanto técnica de Anatomia Patológica, esses mesmos anos de tanta aprendizagem, investigações, descobertas e muita ciência, acabaram por se fazer sentir pela falta de proximidade com o outro, pela falta de envolvimento (como eu desejava) com o ser humano, pela necessidade de alargar esta paixão que tenho pela ciência para além das paredes do “meu” laboratório e finalmente conhecer o paciente. A Medicina voltou a ocupar-me o pensamento, e tantas vezes me apanhei a pensar nisso que decidi tentar. Fui feliz!

 

As saudades são mais apaziguadas quando estamos no nosso país?

Sem dúvida!! Continuo a muitos quilómetros de casa, mas aquela liberdade de poder pegar no carro e conseguir chegar a casa sem depender de terceiros apazigua, e muito, esse sentimento. Além disso, em apenas poucos meses sinto que o Algarve já é um bocadinho meu, consigo sentir-me “em casa”, coisa que não senti nos quase 6 anos que vivi em Inglaterra.

 

Sentes que és um exemplo de força e coragem para todos os que te rodeiam?

Sinto que descobri em mim força e coragem que não sabia ter. E cada vez que surge um obstáculo, penso em todos aqueles que ao longo dos anos fui ultrapassando. Mais do que um exemplo de força, gostava que fosse um testemunho sobre não desistir, sobre ser melhor do que aquela voz que às vezes nos diz que já é tarde, que já não vale a pena. Vale sempre a pena correr atrás do que acreditamos, do que achamos que nos fará mais felizes! Eu acreditei, e quando duvidei, rodeei-me de pessoas que acreditaram por mim... Pessoas, sempre as minhas pessoas

 

Ao fim de tantos anos a não viver no norte...o sotaque nunca se perde?

Nunca!!! Continuo a dizer “Bamos jantar hoje? Eu lebo as tchouriças e o binho!!” ahahah

 

Obrigada pela tua disponibilidade. E obrigada pelo teu exemplo!

Obrigada eu por este convite. Fiquei genuinamente feliz por quereres partilhar este bocadinho da minha história.

 

Joana Coelho.jpg

 

A Joana é uma pessoa muito especial para mim...A Joana é a minha madrinha de curso!

Sabem quando achamos que nada é por acaso? Conhecê-la é uma dessas coisas. Quando a conheci, nas praxes, soube logo que queria que fosse ela a minha madrinha. Somos muito diferentes. Nem sabia se ela aceitaria...eu não era do grupo das que ia a todas as festas da faculdade ou que ia sair à noite... Mas isso também não importou para ela. Nas nossas diferenças, ela esteve sempre lá. Se ela tivesse entrado logo em Medicina, eu nunca a teria conhecido...se eu tivesse entardo no Porto como sempre quis, nunca a teria conhecido...percebem porque acho que estava destinado?

Incrivelmente, falamos ainda mais desde que nos deixámos de ver (a distância faz-nos unir mais às pessoas que gostamos)... Vamos acompanhando as várias fases da vida uma da outra mas a verdade é que não a vejo pessoalmente há mais de seis anos! (Temos de mudar isto!!)

Mas acho que a história dela tinha de ser aqui contada..é uma história de uma preserverança incrível..de lutar sempre pelo que queremos, mesmo quando poderíamos achar que a oportunidade já passou. Mas é também o nunca nos esquecermos das nossas origens, nunca renegarmos de onde vimos..Porque só quando sabemos bem de onde vimos, o caminho para onde vamos se torna mais fácil...

A Joana é um exemplo para mim. Mas também quero que o seja para quem, como ela, pensa em não desistir dos seus sonhos! Ela acha que ela é que tem de agradecer por eu ter feito esta entrevista..ela não imagina é que todos temos de agradecer por ainda haver pessoas como ela