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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 20.09.20

À Conversa nas Nuvens - Leonor Salicio

Pediatra

Nuvem

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Na semana do regresso às aulas, hoje falamos com a Dra. Leonor Salicio, pediatra na Unidade de Saúde Local da Guarda. Profissional de saúde na linha da frente no combate à COVID-19, nunca é demais agradecer por, no meio desta pandemia que vivemos, disponibilizar tempo para esta entrevista.

 

Antes de mais, a Dra. Leonor trocou Espanha por Portugal… foi uma decisão difícil ou simplesmente aconteceu?

Terminei o curso de medicina em Junho de 2005; naquela altura os médicos internos tinham muitas más condições de trabalho e ordenado, era difícil conseguir vaga no concurso, por isso durante o curso de medicina fui estudando Português na escola de línguas de Salamanca. Fiz 5 anos, é o equivalente ao nível máximo do exame do Instituto Camões. Por azar tive um grave acidente em 23 de Setembro de 2005, fui atropelada numa passadeira numa das principais ruas de Salamanca quando ia trabalhar a um centro médico que passava atestados de condutores e caçadores. Foram alguns meses de dores e fisioterapia, idas ao médico legal, seguradoras... Por isso não me deu tempo estudar o MIR e decidi focar-me só no exame para a especialidade português, mas uma semana antes, disseram que os papeis não eram validados... Tive que ir de comboio até Lisboa até à embaixada e ao Ministério da Saúde, foi uma aventura, mas deve ser o destino; fiz o exame e entrei em Pediatria, a especialidade que queria...

 

E viver no interior de um país como Portugal, tem mais vantagens ou desvantagens?

Eu encontro muitas, senão não viveria aqui, numa aldeia ainda por cima. Já vivi no Algarve, em Portimão e no Porto, adorei muito o Porto e quando posso para lá fujo, fico na "aldeia" durante a semana e só ao fim-de-semana vamos para a cidade, em contra-corrente. Mas já não tenho pachorra para os engarrafamentos de trânsito, multidões e distâncias grandes. Num sítio pequeno podemos perder intimidade e anonimato, mas se não somos bandidos e não fazemos coisas de mal...

 

Há uns dias lia uma entrevista de um médico virologista que dizia que “nas faculdades de medicina ninguém nos prepara para este terror de uma pandemia”. Em termos profissionais, como foi esta preparação?

Ninguém estava preparado para isto, nem nos passava pela imaginação. Agora sinto raiva, de todo o nosso suor e sacrifício ir água abaixo quando vejo pessoas a marimbar-se para as normas, os cafés das aldeias cheios de gente em esplanada e dentro aos montes sem máscara, as empregadas também sem máscara (já me aconteceu em vários locais). Até no hospital entram funcionários sem máscara!!! Fico a pensar, todo o esforço para quê? Não há mais contágios por sorte...

 

Sentiu que o Sistema Nacional de Saúde ia estar à altura ou houve sempre incertezas?

Houve muitas incertezas e ainda as tenho, até quando teremos material (EPI's e reagentes e testes)? Até quando teremos vagas nas UCIs, há muitos casos, com sorte ainda não estamos saturados, mas vem aí a segunda vaga? Nós, cansados física e psicologicamente aguentaremos? Porque para a opinião pública passamos de heróis a vilões num segundo, porque não voltaram as consultas como antes, o nosso PM a chamar-nos de cobardes pelo caso do lar de Reguengos...

 

Estar na linha da frente deste combate, não lhe deixou angústia pelos seus?

Para mim o pior foi o fecho das fronteiras e o poder acontecer alguma coisa e não poder acudir. Pelos meus filhos nunca tive medo, já que a idade pediátrica por sorte evolui com clínica mais suave, já cheguei pensar o que seria de nós se o meu marido e eu ficássemos doentes ou internados com os meninos por casa e a fronteira fechada, espero que não seja necessário voltar a tomar essa medida!

 

A Dra. Leonor criou uma página no facebook onde faz diretos para falar sobre diversos assuntos médicos, que ganhou outra dimensão durante a pandemia. Porque decidiu criar esta página?

A página foi criada em 2015. Os meus doentes do consultório já eram meus seguidores e era um meio de partilha de informação e de comunicação. O primeiro vídeo que publiquei falava de que não ia fazer consultas na clínica por segurança, antes de que isso fosse regulado e estipulado pelo estado de emergência. Depois havia pessoas que me faziam as mesmas perguntas e fazer o vídeo era mais rápido para responder a várias pessoas com a mesma dúvida e o resto, vocês já conhecem...

 

Ao falar de temas tão diversos mas que nos são tão próximos, principalmente a quem tem crianças, acha que ajuda a desmistificar muitas ideias pré-concebidas?

Espero que sim, para isso o faço. Mas ainda há quem teima e não muda mesmo com a evidência da ciência na frente, mas não se pode convencer ao 100% das pessoas.

 

Os seus diretos têm tido cada vez mais visualizações e reações muito positivas por parte dos seus seguidores…isso dá ânimo para enfrentar os dias mais difíceis?

 

Claro que dá ânimos mas também responsabilidade e temos que ter cuidado não só pelo que se diz senão também pelo como se diz, os ânimos nas redes estão muito à flor de pele e qualquer coisa faz faísca e sai um grupo de haters a criticar amparados pelo anonimato das redes e podem magoar muito. Por sorte já tive algum desgosto ou outro mas não foi nada de maior.

Há também quem defenda que, a nível pediátrico, o verdadeiro “boom” de casos de COVID-19 será neste outono, quando todos regressarem às escolas. Também acha que vai ser uma altura mais problemática?

Estamos a ter já umas urgências más porque as crianças na sua maioria quando recorrem aos serviços de urgência é por quadros febris e infeções respiratórias, sintomas muito parecidos ao SARS Covid 2, juntando isto ao pânico umas vezes da família, outras vezes das creches, chegam-nos todos os dias vários miúdos com febre há 1 hora!!! Isto não pode ser, tem que imperar o bom senso, os sinais de alarme e gravidade são os mesmos de sempre. Atuando assim só vamos conseguir colapsar o sistema, esgotarmos física e materialmente e ainda corremos o risco de mal diagnosticar alguma situação verdadeiramente grave entre o caos das falsas urgências.

 

Já acompanhou crianças COVID-19 positivas?

Não, se precisam de internamento o hospital de referência é o pediátrico de Coimbra. Os que não precisam de internamento ficam em casa em isolamento e são os colegas de saúde pública que fazem o acompanhamento.

 

Quais são os principais conselhos que dá aos pais que estão com receio de levar as crianças para as creches/escolas?

A vida continua, temos que trabalhar, o país não pode parar... Ter medo é normal e natural, nos enfrentamos a uma situação desconhecida. O meu conselho é o de sempre, cumprir com as medidas que já conhecemos: etiqueta respiratória, distância, lavagem das mãos e máscara em locais fechados e abertos se não podemos cumprir com as distâncias.

 

Muito obrigada mais uma vez. Obrigada pelo seu trabalho, pelo seu empenho, e acima de tudo, pro ser uma pediatra incrível!

 

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(Foto cedida por Leonor Salicio)

 

Na semana em que a maioria dos alunos regressou às escolas, o coração dos pais ficou ainda mais apertadinho. O crescente número de casos e o medo de que todo o esforço vá por água abaixo, leva-nos À incerteza de estar a fazer a coisa certa.

A Dra. Leonor é só uma dos tantos profissionais que todos os dias trabalham em prol de ajudar nesta pandemia. Também ela tem medos, também ela tem frustrações. Mas também ela é mãe.

É importante não nos esquecermos disto: os profissionais de saúde também têm família.

 

Os diretos dela são como um calmante; de uma forma simples e clara, consegue abordar os vários temas; esclarece, informa. É uma profissional de mão cheia. E o que ela diz é extremamente importsnte: como pais, temos de manter a calma e perceber quais são ou não situações de ir ao hospital. Sei que Às vezes no emio do medo, o pânico se apodera de nós. Mas, se o sistema colapsar, não será bem pior?

 

Como ela diz, temos de aprender a viver com este vírus. Mas isso implica sermos conscientes, não nos pormos em risco nem a nós nem aos outros. E não deixarmos que todo o esforço dos profissionais de saúde sejam e vão. Por eles. E por nós.