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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Sab | 17.07.21

À Conversa Nas Nuvens - Mafalda Magalhães

Nuvem

Mafalda Magalhães é o rosto de quem luta por aquilo em que acredita até ao fim. Mãe do Martim e da Carlota, esta com 14meses, engravida sem planear. A situação agrava-se quando, no primeiro trimestre de gravidez lhe é diagnosticado Citomegalovírus (CMV) e lhe é dado um prognóstico terrível. Juntar a isso as complicações que a Mafalda tivera aquando do parto da Carlota e a decisão parecia ser só uma – interromper a gravidez... Tanto a bebé como a Mafalda corriam sério risco de vida. Mas a Mafalda acreditou; acreditou como nunca e como ninguém... Hoje, a Luzinha já tem seis meses e a Mafalda está nas Nuvens para partilhar esta caminhada connosco!

 

Mafalda Magalhães.png

Olá Mafalda. Antes de mais, muito obrigada por estar aqui hoje nas Nuvens! Durante esta sua última gravidez recebeu o diagnóstico de infeção por CMV. Para quem não sabe, a infeção por CMV durante a o primeiro trimestre da gravidez significa o quê?

Olá Lara, obrigada eu pelo convite e desculpa ter demorado tanto tempo mas a minha vida nos últimos meses tem sido uma adaptação a uma nova rotina que não estava habituada, o CMV é um vírus da família do herpes, quase todos nós em algum momento da vida contraímos o vírus, é um vírus altamente contagioso mas na maioria das pessoas é inofensivo, no máximo ficam com uma “gripe”; para doentes oncológicos, pessoas com doenças auto imunes e o sistema imunitário baixo tendem a ter consequências mais graves desde infeções nos órgãos , cegueira, surdez.. Uma grávida que contraia o vírus pela primeira vez de forma ativa e primária no primeiro trimestre é altamente perigoso para o bebé, os riscos de sequelas graves para o bebé são imensas, pois o bebé cresce e desenvolve-se com o vírus ativo o que pode provocar doenças graves a nível cognitivo, desenvolvimento e motor.

 

A certo ponto, a Mafalda acabou por confessar que se sentia sozinha por ser a única a acreditar que a Luzinha e a Mafalda iam conseguir chegar até ao termo da gravidez. Sente que foi um milagre o que acabou por acontecer?

Com toda a certeza, foi um milagre, e foi um milagre ainda maior a Luzinha ter nascido com tantos problemas e mesmo assim estar a desenvolver-se tão bem, depois de todos os problemas, dos problemas de saúde que tivemos, dos sustos, estarmos as 2 vivas é um milagre!

 

Confesso que acompanhar o seu internamento no hospital, completamente sozinha (devido às restrições por COVID-19), deixava-me de coração apertado. Onde foi buscar forças para superar tudo, sabendo que a Carlota e o Martim também precisavam tanto de si?

Foi muito difícil, talvez o mais difícil, senti e ainda hoje sinto muita culpa, por vezes sentia que estava a escolher filhos, para salvar a Luzinha tinha que deixar os outros 2 para trás, todos os dias chorava muito e todos os dias sentia muita culpa, fiquei com uma depressão pré-parto e um dos grandes motivos foi o afastamento dos meus filhos, tinha muitas saudades deles e não os pude ver por 3 meses, foi muito difícil, não desejo a nenhuma mãe...

 

Hoje, seis meses depois, já se sente em paz com a sua decisão ou continua a sentir que pode ter falhado enquanto mãe?

Nunca senti que falhei enquanto mãe, pelo contrário, acho que fui pela primeira vez mãe de verdade, pus o meu bem estar, a minha saúde, as minhas necessidades de lado para poder proporcionar e dar vida à minha filha Luzinha. Cada vez que sinto “culpa” por alguma coisa menos boa desses meses de internamento olho para a Luzinha e vejo que valeu tudo a pena, todos os sacrifícios, todo o sofrimento, todos os obstáculos, tudo e foi muito para uma pessoa só lidar, acho que fui muito corajosa, por vezes nem sei como consegui!

 

Neste processo, a Mafalda não se cansou de agradecer e parabenizar a excelência do SNS e das equipas que a acompanharam. A confiança na equipa de saúde que a acompanhava foi fulcral para a Mafalda acreditar que, no fim, ia ficar tudo bem?

Sem dúvida, foi uma surpresa muito boa, eu sempre fui acompanhada no privado, os meus filhos também, tive 2 partos no privado e desta vez fui “obrigada” pelo risco do caso em si a ir para um hospital público, um hospital de referência para grandes prematuros. Fui extremamente bem tratada, foram a minha família e guardo todas aquelas pessoas para sempre no coração, desde os médicos, enfermeiros, auxiliares, senhoras da comida, senhoras da limpeza, todos, tenho zero queixas, merecem tudo de bom no mundo, o nosso sistema nacional de saúde é muito bom, só tenho a dizer bem de tudo e acredito que tinha a equipa certa para mim, o doutor Fernando Cirurgião desde o início que foi espetacular connosco e devo-lhe a nossa vida!

 

No meio de tudo isto, a Mafalda foi tendo de lidar com o escrutínio dos seus seguidores que, sem se perceber, acabaram alguns deles por a criticar e deixar ainda mais em baixo. Hoje em dia, já consegue lidar melhor com esses comentários menos felizes?

Acho que nunca vou saber lidar bem com isso, apesar que agora vou aprendendo a ignorar algumas coisas e a desvalorizar outras, não podemos agradar a todos e os outros não sabem tudo sobre a nossa vida, apenas pedaços daquilo que vamos partilhando, estou mais leve em relação às críticas mas continuo a não aceitar e a não gostar de faltas de respeito, de maldade pura, crua, apenas com o propósito de magoar e prejudicar e quando a maldade é direcionada aos meus filhos aí sim viro leoa, as crianças são puras, não merecem ser vítimas de pessoas mal formadas e pouco instruídas.

 

No regresso a casa, com os três ao seu lado, foi o saber que “ainda bem que não desistiu”?

Sem dúvida, foi a melhor sensação de todas e todos os dias quando me deito agradeço a Deus poder estar com os 3 em segurança, tivemos mesmo muita sorte e por isso tenho muito para agradecer.

 

É impossível que com tudo isto, a vida familiar não seja afetada e a Mafalda nunca escondeu isso. É importante para si essa transparência ou, hoje, já pondera mais as suas partilhas?

Continuo a ser a mesma, faz parte da minha personalidade e sei que isso prejudica-me muito até a nível profissional mas sou o que sou, não consigo fingir, não consigo fazer e pensar no que as pessoas vão gostar mais de ouvir, já há muitas vidas perfeitas na internet, a minha vida é uma vida real, como tantas outras é só me faz sentido ser assim, sendo eu própria e mostrando aquilo que somos, seja bom ou mau.

 

A Mafalda já disse várias vezes que é mãe de quatro... é importante começar a desmistificar este tema para que, essa dor, possa ser libertada?

Aos poucos finalmente comecei a libertar-me desse peso e dessa culpa, mas a dor irá permanecer para sempre comigo...

 

Daqui a uns anos, quando olhar para trás, acha que só restarão as boas memórias ou, há coisas que nunca conseguirá apagar?

Há coisas que nunca vou esquecer, passei por muitas coisas, muito sofrimento, situações muito más que ninguém imagina, ninguém tem a noção do que é, fiquei com alguns traumas, muitos medos, ainda tomo medicação para a ansiedade e para dormir, fiquei com uma depressão profunda que só agora aos poucos estou a conseguir melhorar e controlar, é um processo longo que só o tempo poderá ajudar a amenizar a dor mas sem dúvida que a vitória e os progressos da Luzinha serão sempre o mais importante e algo que levo sempre comigo é que temos de ver sempre o copo meio cheio, até acontecer alguma coisa má serei sempre positiva e agradecida à vida.

 

Obrigada. Obrigada pelo seu exemplo de força, esperança e amor.

 

A Mafalda é a personificação de força. Comecei a acompanhá-la quando ela foi internada na gravidez da Luzinha e não sei dizer quantas vezes dei por mim a chorar com as suas partilhas, com as suas dores, incertezas e medos. Não sei quantas vezes tive vontade de a abraçar.

Não sei explicar a felicidade que senti quando a Luzinha nasceu e ambas estavam bem. A Luzinha ganhou o meu coração, mesmo sem nunca a ter visto pessoalmente.

Quanto às críticas, não se entendem. Porque há situações das quais não podemos falar, porque só quando se passam por elas poderemos saber o que faríamos, como agiríamos.

 

A Mafalda tem revés na vida que não se desejam a ninguém. Mas, na sua voz de menina que contrasta com a sua força interior maior do que o mundo, ela é uma mãe como poucas. Uma mãe coragem, uma mãe que nunca desiste dos seus!

2 comentários

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    Nuvem

    23.07.21

    sem dúvida mesmo!! beijinhos
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