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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Qui | 28.02.19

À Conversa nas Nuvens - Maria João Lopes

Nuvem

É cada vez mais importante que os profissionais gostem daquilo que fazem para serem bons. Quando se é médico, esta importância é ainda maior. Porque é a vida de pessoas que está em causa.

Maria João, 28 anos, é médica por vocação. E recém-mamã. E voluntária. E…tantas outras coisas que vale mesmo a pena conhecê-la!

 

Olá Maria João. Obrigada por aceitares estar aqui pelas Nuvens. Vives em Lisboa, mas és da Guarda. Foi fácil a adaptação?

Olá! Para começar, muito obrigado por este convite… é um prazer participar nesta rubrica!

Então, vim viver para Lisboa aos dezoito anos, quando entrei na faculdade. No início, detestei a ideia. Olhando para trás, Lisboa trouxe-me tantas, mas tantas coisas maravilhosas. Quanto à adaptação… tinha muitas saudades da minha família (e da minha irmã, em particular), que acabava por ir à Guarda praticamente todos os fins-de-semana! Podia ser a voz de qualquer altifalante da CP a enumerar todas as paragens do Intercidades!

 

Nunca sentiste alguma discriminação por seres do interior do país?

Fui alvo de algumas brincadeiras relacionadas com a forma de falar (por exemplo, dizer vermelho e não “vermalho” ou pela utilização da 2ª pessoa do plural) e, ainda hoje, o meu marido diz que eu passei com distinção na disciplina de provérbios, que só existe nas escolas da Guarda, porque os utilizo com muita frequência. Quanto à discriminação maldosa… sou uma provinciana com muito orgulho nas suas raízes. A maioria das pessoas que acha que o local onde nasceu (e a capital mais propriamente) lhe concede algum tipo de superioridade, padece de uma profunda ignorância em relação ao país em geral. E aprendi a não valorizar. Incomoda-me muito mais a discriminação que sentia quando vivia na Guarda (e que se mantém) por parte de quem comanda o país. Pensarmos em medidas, infraestruturas e investimentos para uma ou duas cidades e esquecermos que há mais Portugal e Portugueses… Portugueses esses que votam, que pagam os seus impostos, que…

 

Apesar de viveres na capital, é sempre bom voltar às origens? Respirar ar puro?

É muito bom! Gosto muito da Guarda… a Guarda dos amigos, a Guarda da minha família. A Guarda da comida maravilhosa. Voltar faz-me sempre bem! Para Lisboa, regresso sempre já com saudades e depois de um raspanete ou outro do meu marido porque “é sempre a mesma coisa! O carro sempre cheio! Mal tens espaço para as pernas”. Mas o meu lema é sempre o mesmo: mais vale uma perna dobrada, que uma dúzia de ovos não “embarcar”.

 

Ser médico de medicina geral e familiar tem uma importância abismal que muitos não reconhecem. Sentes isso?

Sinto que é um paradigma que está a mudar. Acredito que estamos a formar cada vez melhores médicos e enfermeiros nesta área, capazes de olhar para a pessoa como um todo. E esse todo engloba a sua saúde individual, mas engloba a sua família, o seu contexto (profissional, socioeconómico...). É uma especialidade de pessoas e de proximidade, transversal a qualquer faixa etária. E é isso que tanto me fascina e me motiva.

 

Já fizeste voluntariado na Costa do Marfim e na Guiné Bissau. Foram experiências de uma vida?

Foram experiências muito marcantes na minha vida mas… não serão as únicas (não contes é nada à minha mãe!)! O “bichinho” do voluntariado internacional permanece cá… como tenho um filho pequenino, está um pouco mais adormecido (como eu própria, dado que noites de sono é coisa raríssima por aqui!). Mas um dia voltarei… e dar-me-á muito prazer levar o meu filho comigo e deixá-lo… crescer e desfrutar.

 

Fazer esse trabalho de voluntariado faz de ti melhor médica e, acima de tudo, melhor pessoa?

Claro que, em termos profissionais, essas experiências foram muito importantes. Trouxeram-me uma maior proximidade e empatia com a comunidade africana, permitiram que contactasse com situações que muito dificilmente experienciaria sem ser naqueles locais. Mas a sua importância vai muito para além disto. Todas as experiências de voluntariado que vivi, as pessoas que conheci, o amor que me deram, aquilo que me ensinaram, moldaram muito do que sou. Sou incrivelmente mais rica por ter tido essas oportunidades e por, ainda hoje, os missionários fazerem parte da minha vida. O impacto pessoal e profissional disso… só posso agradecer!

 

És uma recém-mamã! Ter a perceção e conhecimento de tantas coisas más que acontecem aos outros, faz-nos ter mais medo pelos nossos?

Tento que não. É inevitável, por saber algumas coisas, não equacionar mais e, por vezes, piores cenários. Mas, no meu dia-a-dia e com os meus, o meu papel passa mais por tranquilizar e desdramatizar sempre que é possível.

 

É fácil separar a mãe da médica que há em ti?

Eu tento mas nem sempre consigo. Há algumas coisas que preferia não saber… acho que os profissionais de saúde acabam por ter acesso uma série de informações/teorias/estudos/conhecimentos/quiçá macumbas/e sei lá mais o quê, sem os quais ouviriam mais o instinto ou coração ou o que fosse e talvez funcionasse melhor! Enfim…tentei viver a gravidez de forma o mais tranquila possível. Neste momento, o meu filho é uma fonte de aprendizagens inesgotável… é tudo! Se há um ano me dissessem que sessenta centímetros de gente teriam este efeito… diria que era impossível. E não vou continuar porque tu também és mãe e sabes que há um botão chamado “o meu filho” que quando se liga… é o cabo dos trabalhos para desligar!

 

Hoje em dia ser mãe antes dos 30 dizem ser “impraticável” para quem quer ser bem-sucedido profissionalmente. Queres muito contrariar isto?

Acho isso um tremendo disparate! Mas que faz parte da forma disparatada como, em Portugal, olhamos para o trabalho. Achamos que a rentabilidade e o sucesso profissionais são sinónimo de alguém trabalhar muito mais horas por dia do que o seu contrato diz, sem receber mais por isso, de ser o último a abandonar o seu local de trabalho, de estar contactável e disponível depois disso e também ao fim-de-semana. Só que, para mim, não podia estar mais longe disso. Uma pessoa feliz será, sem dúvida, uma pessoa com sucesso nas restantes áreas, profissional incluída. Queríamos muito ser pais e quando sentimos que era isso que nos faria felizes… avançámos. Terá impacto na minha vida profissional? Claro. De forma mais negativa do que positiva? De certo que não! (Achas que, antes de ser mãe, dominava a arte de mudar uma fralda, as quatro melhores posições para fazer uma “mini-pessoa” arrotar ou como dar banho a um ser ligado à corrente? Pois está claro que a Faculdade de Medicina nada me ofereceu neste campo! Já ter sido mãe…)

 

Já escreveste um livro, “Para Sempre… Talvez Não”. Não ficou o bichinho para voltar à escrita?

Ele ficar, até ficou! Já tempo para… é que é mais difícil! Se até para escrever esta entrevista, tive de rezar com muita força à “Nossa senhora dos bebés que dormem mais do que uma hora seguida” para que me deixasse terminar! Mas… quem sabe um dia!

 

Um livro, um filho e possivelmente muitas árvores plantadas depois…a tua vida é o que sempre sonhaste?

Acho que não sonhei com uma vida especificamente! Mas se sonhei, tinha o cabelo arranjado, não tinha olheiras, a camisola não estava bolsada e a casa estava arrumada e não com brinquedos em todas as divisões! E adivinha? Gosto muito mais dela assim! Alguns dos meus sonhos estão concretizados, mas… ainda há tantos na lista por concretizar! Para já, posso dizer que sou muito feliz, que gosto muito das minhas pessoas e da minha vida no presente… mas, ainda há tanto para viver!

Obrigada pela tua disponibilidade. E obrigada pelo teu exemplo!

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(Foto cedida por Maria João)

 

A Maria João é uma das minhas pessoas preferidas no mundo. Foi minha colega de secundário e tenho um enorme orgulho por poder dizer que é minha amiga.

Não sei se ela se lembra, mas num dos últimos jantares de turma do secundário, quando já sabíamos mais ou menos as nossas médias e eu sabia ser impossível entrar em Medicina, disse-me que trocaria de lugar comigo porque sabia que eu seria uma excelente médica... Ainda bem que tais trocas não são possíveis. Ainda bem que ela seguiu este caminho. Somos tão felizes as duas... Ela é médica por vocação. E já há tão poucos.... Ela é amiga de coração..e já são tão raros.

A Maria tenta sempre fazer o melhor pelos outros. É capaz de passar horas a tentar ajudar alguém. Preocupa-se mais com os outros do que com ela...Quantas pessoas ainda há assim?

Abraçou este desafio da maternidade de uma forma incrível. Que sorte tem este meu menino lindo por a ter como mãe!

Sou muito suspeita para falar. Mas esta é a médica que todos gostaríamos de ter. Preocupada, extremamente profissional, dedicada e, acima de tudo, tão humana...

Tem muito orgulho de onde vem e sabe para onde quer ir... E só assim se forma uma pessoa tão bonita como ela.