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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Qui | 07.03.19

À Conversa nas Nuvens - Ná

Nuvem

Num país cada vez mais envelhecido, é essencial e crucial a prestação de (bons) cuidados aos mais velhos. Contudo, assistimos sistematicamente a notícias de maus tratos, a idosos a morrerem sós. A Ná trabalha com os mais velhos há 8 anos. Sente-se feliz a fazê-los sentirem-se melhor! É também autora do blog “1001 pequenos Nadas”. Fomos conhecê-la!

 

Olá Ná. Em que consiste o seu trabalho?

Sou psicóloga de formação e foi apenas isso que durante cerca de 4 anos exerci na instituição onde trabalho, com funções de acompanhamento psicológico aos nossos seniores e colaboradores . Mas desde Setembro de 2015 passei a exercer funções de diretora técnica dos nossos centros sociais. Estive 1 ano e meio num dos nossos centros mais pequenos, onde tínhamos apenas respostas sociais de 3ª idade e desde fevereiro de 2017 sou diretora técnica de um dos nossos maiores centros sociais, onde tenho creche, pré-escolar, ATL, centro de dia e apoio domiciliário. Enquanto diretora técnica o meu trabalho consiste em gerir toda a casa, clientes, colaboradores e serviços.

 

Quando acabou o curso, era esta a área em que queria exercer?

O trabalho com a 3ª idade sempre foi um dos meus preferidos. Aliás, o meu estágio de final de curso foi precisamente num lar de 3ª idade, por ser uma área que muito me fascina. Claro que quando acabei o curso e durante todo ele, um dos objetivos era trabalhar na área clínica e hospitalar, mas sempre com um enfoque muito grande na 3ª idade e nas suas patologias. Apesar de o meu primeiro emprego ter sido junto de crianças, felizmente a vida deu-me a oportunidade de exercer na área da 3ª idade e pude perceber que realmente essa é uma das minhas “praias preferidas”.

 

Já descreveu várias vezes no seu blog situações de pobreza dos seus utentes. É fácil de digerir?

Trabalhando eu há 8 anos maioritariamente em cenários desfavorecidos financeiramente, a pobreza já não me é difícil de digerir. É uma preocupação, é. Mas não é a principal. Os nossos velhinhos (e é esta a forma como gosto de os chamar!) têm problemas maiores que a pobreza. Possivelmente a solidão e o desinteresse a que alguns estão sujeitos é aquilo que mais me incomoda e revolta.

 

Como é sentir que, com o seu trabalho, consegue alegrar, nem que seja um pouco, a vida deles?

Sentir e saber que todos os dias, de alguma forma, conseguimos fazer algo de diferente e positivo na vida de alguém é provavelmente uma das melhores definições de realização profissional, mas sobretudo, pessoal. Parece algo grandioso, mas se pensarmos bem é muito muito fácil todos os dias fazermos qualquer coisinha de bom por alguém. Às vezes um sorriso basta.

 

Continuam a existir idosos a viver completamente sozinhos, sem qualquer família que se importe com eles?

Continuam e continuarão! Uns porque não têm mesmo ninguém, outros porque foram construindo essa solidão ao longo da vida e afastaram-se de tudo e de todos (é preciso ter a coragem de dizer que há idosos sozinhos porque assim o querem!) é outros que até têm família mas não na verdadeira ascensão da palavra. Mas a solidão é uma realidade atual! Para os nossos idosos e infelizmente para os não tão idosos. Somos cada vez mais “eu” e cada vez menos “eu e o outro”, por isso a solidão é uma espécie de epidemia.

 

O que é que continua por fazer por essas pessoas?

Tudo! Estará sempre tudo por fazer nesta área. Há sempre algo que poderíamos melhor. Felizmente o mundo vai estando mais alerta para a importância de cuidar dos nossos velhinhos. É muito bonito vermos a esperança média de vida aumentar, é espetacular termos pessoas a viverem até aos 100 anos, mas é importante pensarmos nas implicações de tudo isto! Vivemos mais, mas será que vivemos vida realmente? Será que temos qualidade de vida? Será que estamos felizes a viver mais anos? Será que vale a pena viver mais anos com mais problemas de saúde? Cada caso é um caso. Cada qual tem as suas necessidades. Esta é uma área muito sensível.

 

Em 2018, a Organização Mundial de Saúde publicou que “Portugal é um dos 5 países da Europa que pior trata os idosos”. É triste saber isto?

É triste. Mas é preciso perceber porque que os tratamos mal. Onde estamos a falhar? Será que está só nas nossas mãos melhorar a vida dos nossos idosos? Há muitos aspetos que ultrapassam totalmente os nossos limites e capacidade de atuar.

 

Os idosos hoje em dia já não são os típicos “velhinhos” que nada conhecem,certo? Ou ainda é a realidade?

Ainda é a realidade para alguns. Mais uma vez cada caso é um caso. Nesta questão há uma forte componente cultural, educacional e social. Eu conheci velhinhos que eram absolutas enciclopédias e outros que eram assustadoramente limitados cognitiva e culturalmente. Tudo depende da vida que viveram ou escolheram viver. Mas é uma realidade que atualmente temos idosos cada vez mais modernizados e ativos e isso é uma maravilha.

 

Também tem um blog, o “1001 Pequenos Nadas”. De onde surgiu a necessidade de o criar?

Sempre gostei de pensar sobre as coisas e escrever sobre elas. O blog foi uma forma de não escrever só no papel e só para mim. Nos últimos tempos, devido a questões profissionais e opções pessoais, a escrita ficou em stand-bye e consequentemente o blog estagnou. Nem sempre é fácil gerir as exigências das funções que tenho... o desgaste emocional e psicológico diário obrigou-me a ser capaz de desligar a mente de pensamentos mais profundos nos momentos pôs laborais, daí que a escrita esteja num longo período de pausa!

 

O blog é também uma forma de tentar chamar a atenção para a problemática da sua profissão?

Nunca foi esse o objetivo. Quer no blog, quando o fazia, quer no Instagram, público tudo aquilo que de alguma forma me tocou, seja algo super banal, seja um grande acontecimento. Acima de tudo, gosto de chamar a atenção para a vida e para quão maravilhosa ela consegue ser em pequenas coisas. Quanto às problemáticas da minha profissão tento agir e mudar algo e não tanto chamar a atenção.

 

Por fim, obrigado pela sua disponibilidade. Na sua opinião, Portugal ainda não está preparado para ter mais idosos do que jovens?

O mundo não está preparado para isso ainda por isso coloca uma série de questões e problemáticas que muitas vezes ultrapassam a nossa capacidade de agir! É um bocadinho à semelhança daquilo que Saramago colocou no seu “As intermitências da morte”: se de repente não morrêssemos mais era espetacular não era? Mas e o resto? Se pensarmos nas implicações de ninguém morrer nas mais diversas áreas essa hipótese é mais um problema do que um milagre. O aumento da esperança média de vida é algo semelhante. Já falei disso numa questão anterior e não me quero repetir mas efetivamente é preciso pensar muito bem nesta coisa de pudermos viver todos muitos mais anos uma vida que mereça ser chamada de vida.

 

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(Foto cedida por Ná)

 

São recorrentes as notícias de maus tratos a pessoas da 3ª idade. As notícias de que foram encontrados mortos sozinhos. As notícias de que foram abandonados pela família.

Esta é uma realidade do século XXI. Não de há  séculos atrás. Quando a evolução da espécie caminha apra melhor em tanta coisa, há outras que tendem a piorar. O carinho e o cuidado pelos mais velhos é uma delas. Parece que as pessoas se esquecem que todos, se a vida o permitir, vamos ali chegar. Que todos queremos ter uns últimos anos com decência, com carinho, com amor.

O trabalho de pessoas como a Ná é de uma importância sem igual na sociedade de hoje. Porque são estas pessoas a companhia dos muitos que não têm mais ninguém. Obrigada a elas. Por serem a família de quem não mais ninguém!