Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Dom | 27.09.20

À Conversa nas Nuvens - Susana Almeida

Ser Super Mãe é Uma Treta

Nuvem

112215397_301422954435740_7030749313814762369_n.jp

Ser mãe é um trabalho difícil. Acharmos que somos super mães é esquisito. Porque ser-se mãe e pai já é ser-se Super. Ou não. Somos e pronto!

A Susana mostra, todos os dias, que não podemos querer que a maternidade seja uma coisa que nãe é: perfeita. Por ventura já a conhecem, mas hoje, a Susana está nas Nuvens!

 

 

Olá Susana. Ser mãe é a prova de maior resistência física e emocional que existe?

Não conheço outra que exija tanto de nós. Deixamos de ser a mesma mulher assim que olhamos para o teste que nos diz que temos vida a ser gerada dentro de nós. E tudo muda fisicamente e emocionalmente. Esta adaptação a quem somos agora, a gravidez que me parece sempre interminável, o parto, o filha da mãe do pós-parto, a amamentação, a tortura da privação do sono, as birras, a procura por existirmos para além dos filhos, as opiniões de quem sabe sempre melhor do que nós como educar os nossos filhos, o amor avassalador, o tempo que voa, o coração que mirra um bocadinho sempre que os sentimos tristes ou estão doentes, a vontade de os enfiar numa bolha para sempre e vou parar por aqui porque não quero ser responsável pela quebra de natalidade.

 

E porque é que “Ser Super Mãe é uma Treta”?

O ser super mãe é uma treta surgiu de um texto que escrevi ainda para o Amãezónia.  Esse texto foi uma espécie de grito a mim mesma, uma chapada na tromba e um valente abanão. Estava muito cansada, à beira de um esgotamento, sofria com a privação do sono, o meu filho acordava de duas em duas horas durante a noite, arrastava-me literalmente pela vida, até o meu piloto automático já tinha desistido de mim e eu insistia que não podia parar. Depois descanso, depois vou ver porque ando com tonturas, depois vou ver porque me esqueço de tudo, depois, depois e o depois levou a um enorme ataque de pânico que me fez ficar de baixa para finalmente descansar. Quem nunca? Existe a ideia de que as mães conseguem tudo, que são dotadas de uma qualquer força sobrenatural que lhes permite serem invencíveis. Nunca estamos cansadas, nunca ficamos doentes, sabemos o que fazer em todas as situações e trazemos para nós todas as tarefas relacionadas com os filhos e com a casa. Foda-se, não. As mães não usam capas, não têm super poderes e ser super mãe é uma treta que coloca em nós o peso absurdo da perfeição.

 

Quando criou o Blog com esse nome, teve medo de ser mal interpretada? Ou nunca pensou que este se tornasse num dos blogs de maternidade mais lidos em Portugal?

Não perdi tempo a pensar nisso. Eu queria escrever, no meio do caos dos filhos, queria voltar a fazer uma das coisas de que mais gosto, que é escrever. E inicialmente estava a escrever para mim e para meia dúzia de amigos que liam as minhas merdas. Estando a escrever para mim não fazia qualquer sentido usar filtros, estar presa ao politicamente correto ou estar a enganar-me com floreados e visões cor-de-rosa. Não era nada disso que eu sentia, não era assim que eu via a maternidade e fazer isso seria demasiado estúpido. Então fiz uma escolha consciente de escrever tal como penso, com os nervos à flor da pele e com os palavrões sempre à espreita. E é libertador. Liberta-me da pressão dos outros sobre a mãe que esperam que eu seja, liberta-me da culpa, da culpa que as mães sentem só porque sim e porque não, liberta-me do papel que a sociedade quer que as mães desempenhem e liberta-me principalmente do medo de errar. Da tal perfeição. Permite-me ser imperfeita. Ao fazer isto para mim, a bem da minha sanidade mental, inesperadamente tornou-se em algo muito maior do que eu e que chega a tantas mães. O mérito desse “sucesso” não é só meu, é também das mães que dão murros na mesa comigo e que não aceitam que lhes digam que mães devem ser.

 

Porque é que a grande maioria das mães tende a só querer mostrar o bom da maternidade? Acha que as pessoas continuam a ter medo de se mostrar como “qualquer comum mortal”?

Acho que continua a ser muito difícil assumir que cabem muitos sentimentos na maternidade. Que existe uma bipolaridade saudável entre o amor avassalador e a vontade de os atirar pela janela. Que entre o 8 e o 80 cabem muitos números e que há dias melhores e outros piores. As mães são alvos fáceis e facilmente julgadas e não falta quem saiba educar os nossos filhos melhor do que nós. Acho que muitas vezes é o instinto de sobrevivência que impede as mães de assumirem o que sentem. Elas já têm pessoas tóxicas a mais à volta delas, nós mães sabemos como pode ser duro dizer à sogra ou à tia, que o filho é nosso, que nós é que sabemos, que a mãe somos nós. Esta responsabilidade de mostrar a maternidade em toda a sua plenitude não é só das mães, elas também precisam que quem está à volta delas, principalmente os pais, claro, lhes deem apoio, espaço e liberdade para o fazerem sem receio do julgamento.

 

Admitirmos que nem sempre os dias são felizes depois de sermos pais não nos torna mais fracos nem menos pais por isso…

Torna-nos apenas humanos. Depois de sermos pais não deixamos de ser pessoas, de ter sentimentos, desejos, estados de alma e às vezes temos estados de alma por coisas que nem dizem respeito aos filhos. O trabalho correu mal, aquele colega estava insuportável, aparece uma conta inesperada para pagar e outras vezes dizem mesmo respeito aos filhos. Não temos paciência para brincar, não temos tempo para ler uma história, não aguentamos nem mais uma birra, queremos que adormeçam rapidamente. E está tudo bem. Admitir isso é aceitar que fazemos o melhor possível a cada momento.

 

O ano passado escreveu um livro com este tema. Foi inesperado este convite, mas ao mesmo tempo libertador poder passar para livro aquilo que vai escrevendo pelo Blog e pelas suas redes sociais?

Escrever o livro permitiu-me escrever de forma mais aprofundada de temas que já tinha escrito. Permitiu-me também escrever sobre temas que nunca tinha escrito ou que tinha abordado de forma mais ligeira. Não quis oferecer aos leitores uma cópia do que já tinha escrito, mas aproveitar para lhes dar mais, não deixando de ser a Susana que conheciam.

 

A Susana falou abertamente no seu blog sobre ter sofrido um aborto espontâneo e do sofrimento que isso lhe trouxe. Falar ajuda a libertar os nossos receios?

Para mim não há nada mais libertador que falar abertamente. Sobre tudo. Informação é poder, a partilha faz-nos sentir mais próximos dos outros, que não estamos errados, gera empatia e acima de tudo mostra que existem muitas realidades e muitas formas de viver a vida. No caso que referes foi muito importante para mim escrever sobre o aborto. Quando engravidei pensei em várias coisas, malformações, doenças genéticas, disparates vários e inexplicavelmente nunca pensei em aborto. Acredito que isso aconteceu porque à minha volta, as mulheres à minha volta, nunca falaram sobre este tema abertamente e quando aconteceu comigo, de repente, saltavam histórias de todos os lados. A minha amiga, a minha colega, a amiga da amiga, a tia, a prima da vizinha, a minha chefe, todas tinham passado pelo mesmo. Mas, até me chegarem essas histórias, eu sentia-me estragada, que tinha feito alguma coisa errada e injustiçada. Por que raio é que isto aconteceu comigo? Não, a verdade é que aconteceu comigo e com centenas de mulheres antes e depois de mim. Desmistificar é o caminho certo para evitar a culpabilização.

 

Há cada vez mais um maior escrutínio de tudo o que é feito e decidido na maternidade?

Acho que vivemos tempos estranhos em que existe um maior escrutínio de tudo. A maternidade não é exceção. Toda a gente tem uma opinião e regra geral uma opinião extremada. Não existem zonas cinzentas, é tudo preto e branco e as pessoas mostram-se incapazes de calçar os sapatos dos outros. Convém também dizer que hoje se fala muito mais abertamente sobre a maternidade dita real, o que leva a que o choque entre a visão cor-de-rosa e a visão mais crua seja maior.

 

A Susana recebe comentários maldosos pelos textos reais que vais escrevendo? Como é lidar com a maldade de quem se esconde atrás do computador?

Se há coisa que eu aprendi nestes mais de três anos desde que criei o blog é que raramente as pessoas que fazem comentários maldosos estão a falar para mim. Elas não me conhecem, fazem apenas uma ideia de mim que é condicionada pela interpretação que fazem daquilo que eu escrevo, da forma como eu escrevo principalmente. E essa interpretação está cheia de preconceitos, de viés, de experiências pessoais, algumas vezes de medo, de necessidade de mostrar que são mães perfeitas e outras vezes da necessidade incompreensível de me dizerem o que é ser mãe. Confesso que é uma aprendizagem constante, ignoro cada vez mais,  bloqueio quando me ofendem, guardo prints quando considero grave e para memória futura, mas também me desgasto algumas vezes, cada vez menos, quando fervo rapidamente e respondo sabendo de antemão que aquela pessoa não vai mudar a ideia que fez de mim por muito que eu argumente o contrário. O problema nunca é comigo é com elas mesmas.

 

Um copo de vinho pode sempre ser o remédio para as tretas da maternidade?

Sempre. Um copo de vinho, um gin, um chocolate, o que quer que seja que nos faça respirar fundo e dizer eu sou a melhor mãe para os meus filhos. Haja o que houver.

 

Obrigada por ter aceite este convite. Ser super mãe é realmente uma treta e são pessoas como a Susana que nos mostram que não há mal nenhum em termos coisas menos boas. Porque essa é que é a realidade!

Obrigada eu pelo convite e pela companhia nesta viagem alucinante que é a maternidade.

 

Susana - Ser SUper mãe.jpg

(Foto cedida por Susana Almeida)

 

A Susana é uma das minhas referências de maternidade. Mesmo antes de engravidar, já seguia o seu blog e facebook, pela forma caricata e verdadeira como ela escrevia. E a verdade é que ,agora que já sou mãe, me revejo tanto no que ela escreve!

Quando nasce o nosso primeiro filho, é todo um mundo novo. E, a verdade, é que muitos do que nos rodeiam nos inundam com opiniões, certezas e verdades que nem sempre são as nossas. O escrutínio do que nós fazemos é feito e, muitas vezes, deixa-nos inseguras.

Há muito quem mostre ser perfeito. Que mostre só os seus filhos a portar-se bem, a fazer coisas giras. Mas... Não há perfeição numa aprendizagem constante, numa evolução diária, num constante educar e aprender. Mas é essa imperfeição que torna a maternidade a coisa mais mágica do mundo.

A Susana é o exemplo de mãe imperfeita que todas deveremos querer seguir. Porque a imperfeição dos nossos atos, vai-nos mostrar o caminho para conseguir ser bons pais. Não perfeitos...mas os melhores que poderemos ser.

Comentar:

Mais

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.