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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Sex | 04.06.21

O livro rasgado

Desafio dos Pássaros 3.0

Nuvem

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Tinha tantas saudades dele. Fazia um ano que ele partira sem deixar rasto, sem dar uma explicação.

Pensou sempre que ele era o amor da vida dela. Desde o primeiro beijo, à primeira vez que tinham estado juntos na cama. Era tudo perfeito. Era tudo como ela sempre sonhara. 

Por vezes, claro, também tinham discussões. Mas nada de grave e sempre resolvidas passados poucos minutos. Ela tinha uma imensa capacidade de o perdoar...

Nada fazia prever o que acontecera um ano antes. Ela saiu para trabalhar, ele ficara ainda a dormir. E, quando ela voltou para se arranjar para um jantar que tinham marcado no seu restaurante preferido, algo estava diferente. E, foi então que percebeu. As coisas dele não estavam. Nada. Era como se ele tivesse conseguido apagar a sua existência naquela casa, a casa que partilhavam há mais de dois anos.

 Não havia uma peça de roupa, um calçado ou até algo de higiene. Nada. Nada que a fizesse acreditar que, realmente, naquela manhã, ele ainda ali estava.

Soube, dias mais tarde, que ele dissera à família dele que simplesmente não queria mais. E desapareceu. Nunca mais ninguém o vira, mandando apenas algumas mensagens à irmã de quando em vez, para lhes assegurar que estava vivo.

 

E, desde esse dia vertiginoso, ela nunca mais voltou a ser ela. Faltava-lhe uma explicação. Faltava-lhe perceber o porquê. O como. E, acima de tudo, faltava-lhe ele. Faltava-lhe o seu abraço, o seu conforto. O seu amor.

 

"- Não aguento mais contigo!" - afirmou, enquanto o atirava para longe. O retrato dele que continuava a pesar na sua carteira e, acima de tudo, no seu coração. Este sentimento era tudo o que ela queria tirar de cima de si. O sentimento de vazio, de tristeza.

Não sabia como o faria, mas sabia que tinha de o esquecer. Hoje à distância, o sentimento de vazio que sentira naquele dia, há um ano atrás, mantinha-se. E sabia que precisava de o fazer desaparecer.

 

Ele era ainda as suas borboletas na barriga. Era ainda o sonho de uma vida. Era o livro que tinha começado a escrever e que, repentinamente, tinha sido rasgado. Não sabia colar a folha, nem continuar a escrever...

 

O que ela precisava mesmo era de um milagre. Um verdadeiro milagre.

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