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Nas Nuvens de Um Terceiro Andar

Sex | 14.08.20

Será com certeza tarde demais...

Nuvem

O meu avô está numa Unidade de Cuidados Continuados. É doente oncológico há mais de 15 anos. Com várias intervenções  cirúrgicas pelo meio e com uma força gigante que sempre demonstrou, por agora, não há mais nada que se possa fazer, a não ser tentar atenuar a sua dor. É triste, dói, mas é a verdade. Está numa condição que precisa de cuidados permanentes, apesar de ainda ser autónomo.

Todos sabemos que esta doença deixa marcas psicológicas. Que estes doentes precisam de apoio, de carinho. Pela doença que tem, deixou de conseguir falar este ano. Só comunica com gestos ou a escrever.

 

Ontem, quando o fomos visitar, e num momento em que ele está a passar por uma fase bastante complicada e crítica, ele precisava de mais do que um "vai ficar tudo bem avô " à distância. Precisava de não ter de escrever tudo...

Precisava de um abraço, de um beijo. Precisava que lhe enxugássemos as lágrimas com as nossas mãos. 

Precisava de poder abraçar o bisneto que tanto gosta. Precisava de poder estar com os dois filhos mais do que separado por uma varanda. Precisava de não ter de estar a dizer que era a última vez que nos via e estar a despedir-se à distância.


Confesso que quase cedi. Quase subi as escadas que nos separavam e fui lá. Quase lhe dei o meu ombro para chorar. 

Mas tinha o Francisco no colo que, triste, assistia a tudo. E, por muito que me tenha custado, não o podia deixar.

(E, antes que perguntem, levei-o porque supostamente ele estava muito bem, tal como na semana passada e com muita vontade de o ver..não íamos minimamente preparados para o ver assim...)

 

O COVID pode ir embora. Mas para além da liberdade que nos tem tirado nos últimos meses, tirou-nos a possibilidade de amar os nossos. Quando voltar a ser possível, para muitos, será com certeza tarde demais.

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